quinta-feira, 26 de março de 2009

This is one for the good old days;

Eu me lembro bem da fita dela. Combinava com os olhos da cor do céu vazio. No começo, eles não tinham nuvens. Depois, era só o que eu podia ver. Foi culpa dele, eu sei, mas eu não o culpo. Corrompê-la era algo tentador demais para não se fazer, quando ela entregava sua alma a qualquer um que pudesse passar os dedos pelas suas mãos. Ela vivia de delírios e dormia de olhos abertos. Aquelas olheiras... Ela me roubava, na verdade.
Clarissa era tola. Deixava suas digitais nos cadernos alheios, pensando que talvez eles pudessem entender porque o sangue dela corria no sentido contrário. Eles eram alheios a tudo e tapavam os ouvidos a algo que fosse externo ao mundo deles. Estava tudo acabado, mas ela não se importava em tentar mais uma vez. Clarissa tinha esperança.
Ela esqueceu-se de sua fita sobre a mesa de granito camuflado naquele dia em que o céu havia morrido e ninguém viu. Clarissa foi ao funeral vestida de branco. Era um pedido dele. Eu sei que ele sempre se culpou por tê-la machucado mais do que devia. Ele tinha lhe feito uma promessa e não pôde cumprí-la. Mas quem é que cumpre as promessas hoje em dia? Clarissa sabia que ele não queria ser banal. Talvez ela tenha deixado seus olhos de céu vazio no caixão dele. Talvez ela tenha se esquecido da fita sobre a mesa, para que eu lhe procurasse e a encontrasse chorando sob uma escada qualquer. Ele havia morrido de corpo. Ela? Ela havia perdido a alma. Eu só não o chamaria de covarde, porque ele não teve escolha. O dia em que o céu morreu e ninguém viu.

quarta-feira, 25 de março de 2009

A heart of stone, a smoking guy

Eu ia caminhando pela avenida. O asfalto dói, não é? Na verdade, a madeira da cadeira me dói na carne. Assim como a água com gosto de ferro do bebedouro. Eu tomo um banho para esfriar a cabeça que os pensamentos teimam em esquentar com pensamentos irônicos e cruéis. Sou cruel apenas comigo mesma. Hoje, me disseram que é doença. Pois que seja doença, então. Já não é culpa minha se o seu cigarro nunca esteve na minha boca. Você escolheu assim. Mas eu não acredito em destino, meu bem. Eles nunca sentiram o mau que tuas unhas podem fazer à pele. Eles não sabem. E eu nunca esperei que eles se calassem.
...Hoje fiquei falando ao espelho, sem querer que soasse como um ensaio. Falei aquelas palavras que eu nunca vou te dizer, sabe? Exatamente aquelas. Você tem medo? Porque eu, não. Minhas palavras simplesmente foram feitas para não serem ditas. Eu escrevo, mas eu não sei falar. Eu te constrangi daquela vez, não foi? Eu sabia. (Desculpe.) E esperei dois anos para te dizer isso. É meu orgulho, amigo, meu orgulho.
Atendo o telefone e não é você. Ah, é - eu lembro - você não está em casa. Você nunca vai voltar para casa, vai? Eu vivo de lembranças e foda-se se não é sadio o bastante para me aplaudirem enquanto eu exibo um sorriso (falso) no rosto. É dia de silêncio. (E quando não é...?)
Eu queria poder te dizer adeus hoje. Mas quantas vezes eu já não fiz isso? Eu fantasio tanto, mas não chame de esperança o que é tão pequeno que mal aparece no canto das minhas íris. Elas não brilham. Poderia ser interessante, mas não é. Eu estou cansada. Você não?


"Eu daria tudo que eu sou por um pouco mais de esperança."