Não se atreva a olhar para trás. As alianças perfeitamente redondas brilhavam à luz amarela da igreja. Um padre de mãos postas dava as costas ao público. Derramemos vinho em nossas roupas e dancemos (sujos de vermelho) por liberdade, uma última vez.
- Lucas, você a aceita como sua esposa?
Um silêncio penitencial para nunca mais acordar do transe que lhe levaria às últimas palavras. Uma crítica ferrenha ao crucifixo torto na parede muito branca da igreja.
- Sim.
O padre apressava-se. Os dedos gordos (mantidos às custas do dinheiro colocado nas caixinhas das missas) percorriam a bíblia, como se lesse. Mas tudo era uma farsa, não era?
- Marília, você o aceita como seu esposo?
Ela entreabriu os lábios. Sorriu ao noivo (enforcado pelas alianças douradas) e voltou-se ao padre.
- Sim, eu aceito.
Duas crianças aproximaram-se com almofadas nas mãos. Os anéis amarelos deitados como forcas no estofado vermelho. A dança do vinho, uma hipnose constante. Calma, amigo, mais duas gotas de seu próprio veneno. A receita está pronta. O ano acabou. O medo, não.
Marília apanhou a aliança que a criança loura segurava. A mão do homem à sua frente demorou a se estender. Parecia ainda preso às cordas de fios grossos - uma armadilha. A aliança adentrou seu dedo antes que o último fio de voz lhe corroesse friamente a garganta. O metal frio, inoxidável, rasgando veias, carne e oxigênio. (Dancem no vinho!)
Ele apanhou o anel dourado que ainda jazia (falsa e) inocentemente na almofada. Enfiou-o no dedo da noiva e deu seu último suspiro. O apóstolo - por fim - estava morto.
- Eu vos declaro marido e mulher.
Minutos depois. Lucas ajoelhou-se - já frio - no chão da igreja. Os convidados caminhavam para fora. Sua esposa cumprimentava os pais. A bíblia aberta para enxugar suas gotas de sangue cru e cheirando a ferro velho.
O padre saiu pelos fundos. Bebeu a taça de vinho. A dança havia tido seu fim. As cortinas se fechariam a qualquer momento. Um, dois, três.
Nos sapatos do homem ajoelhado perante o altar, duas palavras:
