- Há algo aqui hoje à noite.
É uma sala escura. As paredes estão derretendo e há muita (muita) água no chão.
- Vá dormir.
- É insônia, meu bem.
- É quase dia.
- Talvez seja quase noite outra vez. Veja bem.
- Vá dormir. - Ele repete com seu timbre seco e se vira, repuxando o lençol.
Eu me levanto. Lavo as mãos sujas. Apanho um copo de leite, mas dele não bebo uma gota sequer.
- Com o que você sonhou a noite passada? - As palavras saem da minha boca antes que eu possa controlar.
- Não quero falar disso.
- Você pensa demais antes de me contar, sabe...?
- Eu não preciso. Cale-se ou vai precisar se retirar.
Eu solto um riso por ele ainda pensar que eu sou sua vítima. Ninguém conseguiu perceber a ironia dos fatos?
- Por que eu sempre sonho com você?
- Porque é viciada em...
- Violência. - Completamos a frase juntos. Eu sabia. Eu sempre soube.
- O que eu faço nos seus sonhos? - Ele pareceu interessado. Pela primeira vez naquela noite.
- Você morre.
- Por quê?
- Porque eu lhe mato. Todas as vezes. - Contraí os pulsos ao dizer aquilo. Pequenos feixes de luz começavam a irromper pelas janelas que já desapareciam.
- Você vem dormir agora?
- Sim.
Apanho a faca na cozinha. É hora de pôr fim ao sonho repetitivo. Agora entendo porque as paredes estavam desaparecendo. Não passaria das cinco da manhã, dessa vez. Deito-me ao lado dele para repetir a cena de todas as noites. Os lençóis, todos, banhados de sangue... Você quer ver?
