segunda-feira, 14 de junho de 2010

O presente

- Há algo aqui hoje à noite.
É uma sala escura. As paredes estão derretendo e há muita (muita) água no chão.
- Vá dormir.
- É insônia, meu bem.
- É quase dia.
- Talvez seja quase noite outra vez. Veja bem.
- Vá dormir. - Ele repete com seu timbre seco e se vira, repuxando o lençol.
Eu me levanto. Lavo as mãos sujas. Apanho um copo de leite, mas dele não bebo uma gota sequer.
- Com o que você sonhou a noite passada? - As palavras saem da minha boca antes que eu possa controlar.
- Não quero falar disso.
- Você pensa demais antes de me contar, sabe...?
- Eu não preciso. Cale-se ou vai precisar se retirar.
Eu solto um riso por ele ainda pensar que eu sou sua vítima. Ninguém conseguiu perceber a ironia dos fatos?
- Por que eu sempre sonho com você?
- Porque é viciada em...
- Violência. - Completamos a frase juntos. Eu sabia. Eu sempre soube.
- O que eu faço nos seus sonhos? - Ele pareceu interessado. Pela primeira vez naquela noite.
- Você morre.
- Por quê?
- Porque eu lhe mato. Todas as vezes. - Contraí os pulsos ao dizer aquilo. Pequenos feixes de luz começavam a irromper pelas janelas que já desapareciam.
- Você vem dormir agora?
- Sim.
Apanho a faca na cozinha. É hora de pôr fim ao sonho repetitivo. Agora entendo porque as paredes estavam desaparecendo. Não passaria das cinco da manhã, dessa vez. Deito-me ao lado dele para repetir a cena de todas as noites. Os lençóis, todos, banhados de sangue... Você quer ver?

domingo, 6 de junho de 2010

O dia certo

Perguntaram-me uma vez qual é dia certo para morrer. Eu não respondi. Nunca se está acostumado à morte, mas é a coisa mais certa do mundo. Só se tem certeza de duas coisas na vida: o passado e a morte.
Então, decidindo mudar de assunto, eu me pergunto, existe dia mais mórbido que domingo? Certamente que não. Caímos do ápice do sábado à noite (borbulhando em sensações) ao funéreo domingo à tarde. Podemos já encomendar as velas? E disso, talvez, eu tire outra certeza, mas é tão chato ficar vagando entre as paredes da mesma casa. No domingo, devem ter criado a palavra "rotina". Ou, talvez, "suicídio". Mas não "coragem". Fico vagando, como vagam as almas... Que tentam entender. Ou, talvez, que apenas tentam.
Há dois tipos de loucura nos fins de semana. E quem já (sobre)viveu (não no sentido amplo da palavra) para contar a história desses dois dias, sabe do que eu estou falando. Faz sentido? Não faz sentido. O dia certo? Domingo.