terça-feira, 27 de novembro de 2012
Amoras
São os escombros do silêncio que me ferem mais. Eu rezo aos rostos vermelhos nas amoreiras finas que colorem o precipício do seu mundo. Você se move com cautela, encurva os ombros, enfia em mim as costelas de Adão e sorri. Vejo os prenúncios da melancolia em ondas serenas penetrar os seus gestos. É quase como se tocasse para mim.
Essa casa e os dois dedos de tinta que usaram para cobrir a culpa. Você deitado no sofá, escondendo cigarros queimados em meias velhas. O lago cinzento de inverno e os três fios de cabelo que eu arranquei para me lembrar. São pequenos enigmas que o seu vazio não entenderia. Os dedos que você usa para escrever a primeira confissão foram os primeiros que eu queimei. Mas disso você esqueceu. O piano estava sujo da última vez que nós fomos lá. Fazia tanto frio. Os móveis eram velhos; pareciam pequenos fantasmas a nos assistir cambalear pelo cômodo de mofo. Você se sentou primeiro. Descobriu logo que os acordes eram adequados e arranhou o meu pulso, convidando-me ao monocromático da sua música. Eu me afastei. Desenhei no pó a data, as amoras e os ângulos retos das feridas. O arranhão começou a sangrar quando você desistiu de tocar.
Eu via dois dedos dos alfaiates que costuravam suas roupas se perderem no tecido roto da sua blusa. Suas desculpas escorrem pelo meu pescoço nu. Você, elevado, esguio, suporta o olhar doentio que eu lhe entrego e eu penso em enforcar-lhe com as fitas métricas de mil tons. Meus lábios devem ter-se aberto já mais de três vezes, querendo questionar-lhe os sorrisos, querendo possuí-lo diante de todos aqueles que lhe congratulavam. Eles não sabiam que as marcas nas suas costas eram minhas? Que os pássaros que nós matamos eram fruto do pacto que fizemos com as folhas secas daquele outono frio? Baixei a vista aos azulejos que decoravam o chão sujo e, finalmente, sorri.
– Sua gravata será vermelha… eu imagino…?
Do sangue que você não cortou. Das fitas soltas que os braços das moças deixavam sempre a sobrar na mesa-de-cabeceira. Dos olhos enraivecidos de mamãe nas noites de lua cheia. Da casa que nos acolheu. Da marca que os pregos das escadas deixaram em minhas costas. Das amoras meio apodrecidas com que você uma vez coloriu minha boca sob a sua. Dos cabelos. Dela.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Natureza morta - Parte 1
Parecia haver um sorriso triste nas folhas dos Plátanos naquele dia. Todos os seres do mundo partiram e as catacumbas que as nuvens cavaram no céu destinavam-se somente a mim. Eu perpetuaria sozinha no mundo que criei em silêncio. Os frutos apodreceriam intocados – e então eu o vi.
Ele padecia sob uma árvore alta. Seus cabelos se misturavam à parte escura e queimada dos troncos espessos. Os olhos cinzentos, porém, resplandeciam e quase me cegavam. A insanidade que o contornava era insondável e eu desejei conhecer-lhe o âmago, pois – apesar do sorriso fino nos lábios – ele era a criatura mais triste de todo o meu universo. O mês era agosto. As folhas caíam para enterrar o seu corpo, quando eu é que estava morta e elas não sabiam.
Caminhei à beira do lago, buscando não assustá-lo com meus passos incautos. A água se movia sob a brisa leve e me hipnotizava. Lembrava-me dos corpos que a chuva veio levar na noite em que tudo ruiu. E o silêncio me causava medo. Se eu era prisioneira das lembranças dos outros, por que, então, eles todos não entendiam?
Não tenho certeza se ele me notou antes que eu o visse. Seus olhos de criaturas cegas me prenderam por dois indiscretos segundos. Entreabri os lábios tolamente, apenas para emitir um ruído rouco e frágil. No fim, eu nada pude fazer senão me ajoelhar à sua frente e sorrir. O mesmo sorriso das folhas dilaceradas com as quais o outono nos presenteara.
– Fugindo?
Mas de quem, meu anjo? Os homens maus não mais lhe vem perturbar o sono nas noites em que a chuva é forte o suficiente para abafar os seus gritos. Quis perguntá-lo se ele também gritava, mas baixei os olhos e admirei as pedras enfileiradas ao seu redor: um altar erguido para nossa transgressão.
– Meus irmãos quiseram brincar sozinhos e eu acabei me deixando ficar. Papai disse que eu devia ir à igreja reparar meus pecados. Mas eu gosto deles. Acha que eu devo ir? – Ele me disse, desenhando na terra úmida que o cercava.
Seu pai? Uma pequena criatura como você não caminhou sozinho por todo esse tempo? Não nasceu das rosas ou dos pequenos acentos que Deus pregou em minha pele antes que eu concernisse?
– Não. – Respondo, sem me dar conta.
Há algo nos seus olhos que se confunde com a cor plácida do lago. Você é feito de todas as formas das naturezas que compõem o precipício do mundo. E eu estou tomando a sua mão apenas pela fagulha de voz que você resfolegou. Mas a história começou quando a pétala tocou minha mão e eu sorri. Você percebera e eu sabia. Porque age tão inocentemente, pequeno fantasma? Suas cores se confundem com os pálidos tons do outono, entrando em putrefação, e há muito mais que melancolia nas notas que você sussurra.
– Vê os pássaros? – Estico os dedos e completo o seu desenho feito no chão. Parece-me gentil ou seria um tanto tolo. Acredito que se falasse outra vez, você desapareceria, mas arrisco mesmo assim. – A natureza não peca. Como poderia?
E me descubro sorrindo discretamente à tarde fria. A pele dos meus lábios dói e talvez você descubra que eu não pertenço ao seu espaço, por isso afasto o dedo da sua arte no chão e acabo por arruiná-la com um descuido dos dedos que tremem, negando o meu pedido por absolvição. Os deuses estão mortos. Só nós sobrevivemos.
Há uma pequena mancha de sangue no extremo do seu rosto. Parece-me sussurrar que posso ficar. Há quanto tempo existe, senhor? A eternidade custa a ouvir minhas dúvidas, o tempo não corre aqui. É o seu santuário de galhos secos e água fria que eu maculei.
Eu lhe observo responder ao vento com solitários movimentos, que parecem suavizar qualquer malefício que os corpos dos outros trouxeram. É o fim de toda honra e glória, pois em suas mãos, até mesmo as estaçõe silenciam. Posso sentir a água se mover e não me atrevo a olhá-lo nos olhos outra vez. O azul de vidro e prata resplandece e morre em si mesmo, é ferido por folhas marrons que, molhadas, afundam. Sou como as folhas e você já me engoliu.
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