terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Mentira sua


Ela estava partindo. Seus pezinhos de cristal desencantando os degraus pequenos da escada de brinquedo. Os homens observavam suas taças de cristal, percorriam vestidos e bustos e partes deslocadas de um soneto cruel que Deus inventara para nos perturbar. Ela havia bebido mais que dois dedos de uísque; fumara os três cigarros que prometera à doença dos pulmões; esquecera-se dos óculos de grau antigos que vovó lhe pedira para guardar no bolso secreto do vestido. Estávamos aguardando aquela hora da madrugada em que o chão treme de leve e você não consegue se conter e precisa se ferir. Os pezinhos de cristal quebrando o meu silêncio, forçando um pedido de desculpas que vinha sempre acompanhado de muitos motivos. Mas ela sabe. Ela sabe que eu jamais aprendi a perdoar.
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Eu via amoras escorrendo pelos seus dedos crus. Você, em seus vestidos alvos, me rondando o corpo, sussurrando o que ninguém mais podia escutar. Você enlouquecendo minhas vontades com ideias do que eu jamais poderia fazer. Você me prometendo voltar quando sabia não poder livrar-se do que lhe corrompia, e não era ferrugem, não era umidade, não era ruído malévolo algum. Era você. Você criando mentiras que ronronavam doçuras nas pontas dos dedos, escrevendo sonetos com palavras que nunca existiram, com juras de amor que ninguém fez. Você pendurando roupas no varal que mamãe se esqueceu de cortar quando partiu. Você prometendo ficar.
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Mamãe me dizia para ficar calado quando as visitas chegassem. Eu gostava de enrolar o vestido dela nas minhas mãozinhas pequenas, cantarolando a música que ela escreveu no espelho naquele dia em que choveu como o diabo e Margareth ainda não havia chegado. Eu costumo me lembrar de coisas que ninguém mais lembra. Como quando cortei as pontas dos dedos com as agulhas, que vovó esquecia constantemente no sofá, e desenhei no copo de Margareth o rosto de suas bonecas de pano.
Mamãe dizia que eu não me comportava bem. Dizia que eu viveria de escritos velhos, que eu era um desperdício da tinta de Deus. Ela enrolava cigarros fininhos e os fumava silenciosamente na varanda vazia do seu quarto. Eu tossia e enrolava as mãos no seu vestido longo. Estava chovendo.
Margareth lia poesias para mim quando eu não conseguia dormir. Sua voz era fininha e mamãe batia palmas quando ela dançava em seus sapatinhos cor-de-rosa. Ela gostava de colher amoras estouradas no fim da tarde, quando eu não havia ainda desistido de desenhar os cigarros que mamãe fumou sem me dizer. Ela me dizia que eu seria muito bonito quando crescesse, dizia que eu seria a criatura mais linda que ela já havia visto, mas ela mentia. Pois seus passarinhos coloridos eram leves e sutis e eram lindíssimos quando o sol batia no fim da tarde em suas gaiolas prateadas. Eu invejava os passarinhos que podiam morrer em seus dedos finos sem quebrar o silêncio dos seus pezinhos de cristal... Margareth partiu há tanto tempo, mamãe.