Ela estava partindo. Seus pezinhos de cristal desencantando
os degraus pequenos da escada de brinquedo. Os homens observavam suas taças de
cristal, percorriam vestidos e bustos e partes deslocadas de um soneto cruel
que Deus inventara para nos perturbar. Ela havia bebido mais que dois dedos de
uísque; fumara os três cigarros que prometera à doença dos pulmões;
esquecera-se dos óculos de grau antigos que vovó lhe pedira para guardar no
bolso secreto do vestido. Estávamos aguardando aquela hora da madrugada em que
o chão treme de leve e você não consegue se conter e precisa se ferir. Os pezinhos de cristal
quebrando o meu silêncio, forçando um pedido de desculpas que vinha sempre
acompanhado de muitos motivos. Mas ela sabe. Ela sabe que eu jamais aprendi a
perdoar.
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Eu via amoras escorrendo pelos seus dedos crus. Você, em
seus vestidos alvos, me rondando o corpo, sussurrando o que ninguém mais podia
escutar. Você enlouquecendo minhas vontades com ideias do que eu jamais poderia
fazer. Você me prometendo voltar quando sabia não poder livrar-se do que lhe
corrompia, e não era ferrugem, não era umidade, não era ruído malévolo algum.
Era você. Você criando mentiras que ronronavam doçuras nas pontas dos dedos,
escrevendo sonetos com palavras que nunca existiram, com juras de amor que
ninguém fez. Você pendurando roupas no varal que mamãe se esqueceu de cortar
quando partiu. Você prometendo ficar.
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Mamãe me dizia para ficar calado quando as visitas
chegassem. Eu gostava de enrolar o vestido dela nas minhas mãozinhas pequenas,
cantarolando a música que ela escreveu no espelho naquele dia em que choveu
como o diabo e Margareth ainda não havia chegado. Eu costumo me lembrar de
coisas que ninguém mais lembra. Como quando cortei as pontas dos dedos com as
agulhas, que vovó esquecia constantemente no sofá, e desenhei no copo de
Margareth o rosto de suas bonecas de pano.
Mamãe dizia que eu não me comportava bem. Dizia que eu
viveria de escritos velhos, que eu era um desperdício da tinta de Deus. Ela
enrolava cigarros fininhos e os fumava silenciosamente na varanda vazia do seu
quarto. Eu tossia e enrolava as mãos no seu vestido longo. Estava chovendo.
Margareth lia poesias para mim quando eu não conseguia
dormir. Sua voz era fininha e mamãe batia palmas quando ela dançava em seus
sapatinhos cor-de-rosa. Ela gostava de colher amoras estouradas no fim da
tarde, quando eu não havia ainda desistido de desenhar os cigarros que mamãe
fumou sem me dizer. Ela me dizia que eu seria muito bonito quando crescesse,
dizia que eu seria a criatura mais linda que ela já havia visto, mas ela mentia.
Pois seus passarinhos coloridos eram leves e sutis e eram lindíssimos quando o
sol batia no fim da tarde em suas gaiolas prateadas. Eu invejava os passarinhos
que podiam morrer em seus dedos finos sem quebrar o silêncio dos seus pezinhos
de cristal... Margareth partiu há tanto tempo, mamãe.
