terça-feira, 9 de novembro de 2010

Do soldado que fui

Acordou pensando estar doente. Os olhos vermelhos denunciavam a noite em claro. Mas era apenas febre. E febre do que? De querer e de não poder tocar. De um dia rasgar os olhos para não mais ver o verdadeiro cinza de que era feito o mundo. A febre das feridas entre os dedos, a febre que afligia os sobreviventes da guerra, a febre inebriante do sofrer calado. Percebe?
Um dia lhe contaram sobre as flores amarelas, de mil cores que ele não poderia ver. Um amputado, mudo e daltônico sobrevivente. Mas havia a febre que o consumia e o fazia diferente. Os olhos vermelhos das madrugadas sem fim herdados pelos filhos doentes. O mundo em escalas de cinza, variando da prata ao resto que a chama apagada do fogo deixava na lareira em noite fria.
Era tarde, era tarde, ele sabia, mas havia algo. Talvez a febre. Sempre a febre a crepitar em seus ouvidos queimados. Havia algo que o fazia arrancar os cobertores e andar pela casa. A arma na mão, procurando pelos fantasmas da cor da cinza. Um som, um tiro. Cristais pequenos pelo chão. Foi a primeira vez que viu o sangue. O sangue cinza de seu filho mais novo. No chão. E a febre que não morria. Só os outros... Só os outros. E o seu nome enclausurado em veias mortas. Pobre soldado, sozinho, solitário. Soldado.
Murcharam, então, todas as flores e ao cinza sucumbiram. Fecharam-se os olhos e da lareira se ouviu apenas o som do fogo se apagando. O fogo que a tudo consumiria, exceto - sempre e claro, claro como o cinza de minhas mágoas - a febre.

4 comentários:

  1. Lindo, Camila, lindo!

    Jess.

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  2. Wow.. Show de bola pekena...

    Nem sempre o cinza destroi.. nem sempre a mudança é apenas ruim... Na vida nada se perde, tudo se transforma. Apenas uma mudança de realidade..ou seria de ponto de vista?

    ;] ;*

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  3. Olá Camila

    Não me recordo do dia que fiz um comentário no seu blog, mas devo ter feito rsrsrs
    Meu nome é Nina e sou a autora do Teatros Dos Vampiros.
    Que bom que tenha gostado do meu espaço...voltarei a atualizar em breve.

    bjos para vc

    Stelle d'Rousseloth

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  4. Eu me arrepiei com o seu texto. Seu lirismo me impressionou. Adorei o texto e passo a ser tua seguidora.
    Abraço.

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