Parecia haver um sorriso triste nas folhas dos Plátanos naquele dia. Todos os seres do mundo partiram e as catacumbas que as nuvens cavaram no céu destinavam-se somente a mim. Eu perpetuaria sozinha no mundo que criei em silêncio. Os frutos apodreceriam intocados – e então eu o vi.
Ele padecia sob uma árvore alta. Seus cabelos se misturavam à parte escura e queimada dos troncos espessos. Os olhos cinzentos, porém, resplandeciam e quase me cegavam. A insanidade que o contornava era insondável e eu desejei conhecer-lhe o âmago, pois – apesar do sorriso fino nos lábios – ele era a criatura mais triste de todo o meu universo. O mês era agosto. As folhas caíam para enterrar o seu corpo, quando eu é que estava morta e elas não sabiam.
Caminhei à beira do lago, buscando não assustá-lo com meus passos incautos. A água se movia sob a brisa leve e me hipnotizava. Lembrava-me dos corpos que a chuva veio levar na noite em que tudo ruiu. E o silêncio me causava medo. Se eu era prisioneira das lembranças dos outros, por que, então, eles todos não entendiam?
Não tenho certeza se ele me notou antes que eu o visse. Seus olhos de criaturas cegas me prenderam por dois indiscretos segundos. Entreabri os lábios tolamente, apenas para emitir um ruído rouco e frágil. No fim, eu nada pude fazer senão me ajoelhar à sua frente e sorrir. O mesmo sorriso das folhas dilaceradas com as quais o outono nos presenteara.
– Fugindo?
Mas de quem, meu anjo? Os homens maus não mais lhe vem perturbar o sono nas noites em que a chuva é forte o suficiente para abafar os seus gritos. Quis perguntá-lo se ele também gritava, mas baixei os olhos e admirei as pedras enfileiradas ao seu redor: um altar erguido para nossa transgressão.
– Meus irmãos quiseram brincar sozinhos e eu acabei me deixando ficar. Papai disse que eu devia ir à igreja reparar meus pecados. Mas eu gosto deles. Acha que eu devo ir? – Ele me disse, desenhando na terra úmida que o cercava.
Seu pai? Uma pequena criatura como você não caminhou sozinho por todo esse tempo? Não nasceu das rosas ou dos pequenos acentos que Deus pregou em minha pele antes que eu concernisse?
– Não. – Respondo, sem me dar conta.
Há algo nos seus olhos que se confunde com a cor plácida do lago. Você é feito de todas as formas das naturezas que compõem o precipício do mundo. E eu estou tomando a sua mão apenas pela fagulha de voz que você resfolegou. Mas a história começou quando a pétala tocou minha mão e eu sorri. Você percebera e eu sabia. Porque age tão inocentemente, pequeno fantasma? Suas cores se confundem com os pálidos tons do outono, entrando em putrefação, e há muito mais que melancolia nas notas que você sussurra.
– Vê os pássaros? – Estico os dedos e completo o seu desenho feito no chão. Parece-me gentil ou seria um tanto tolo. Acredito que se falasse outra vez, você desapareceria, mas arrisco mesmo assim. – A natureza não peca. Como poderia?
E me descubro sorrindo discretamente à tarde fria. A pele dos meus lábios dói e talvez você descubra que eu não pertenço ao seu espaço, por isso afasto o dedo da sua arte no chão e acabo por arruiná-la com um descuido dos dedos que tremem, negando o meu pedido por absolvição. Os deuses estão mortos. Só nós sobrevivemos.
Há uma pequena mancha de sangue no extremo do seu rosto. Parece-me sussurrar que posso ficar. Há quanto tempo existe, senhor? A eternidade custa a ouvir minhas dúvidas, o tempo não corre aqui. É o seu santuário de galhos secos e água fria que eu maculei.
Eu lhe observo responder ao vento com solitários movimentos, que parecem suavizar qualquer malefício que os corpos dos outros trouxeram. É o fim de toda honra e glória, pois em suas mãos, até mesmo as estaçõe silenciam. Posso sentir a água se mover e não me atrevo a olhá-lo nos olhos outra vez. O azul de vidro e prata resplandece e morre em si mesmo, é ferido por folhas marrons que, molhadas, afundam. Sou como as folhas e você já me engoliu.

Bom.
ResponderExcluirOnde está a parte 2?
ResponderExcluirEm produção... :(
ResponderExcluirAh! Que lindo, Camila! *-* Preciso da segunda parte, preciso. É a Blossom?! Miss you so much...
ResponderExcluirJess