Você se ergueu numa manhã de outubro,
quando as cores padeciam em tons claros de um castanho mórbido. As portas dos
armários estavam fechadas e as chaves giravam em seus dedos como troféus. Você
sorria e punha leite em xícaras para ninguém. No lanche da tarde, esperaríamos
visitas dos fantasmas que você matou. As costas de suas mãos marcam minhas
costelas. Eu me contraio e deixo que as ondas esfolem suas pernas. Estamos de
volta ao local onde nós enterramos os pequenos caixões das filhas que você não
quis ter, dos ossos que você não quis roer, das cores com que você pintou com
seus dedos aleijados.
Eu lhe observo mover os olhos ao meu colo.
Há ali as sardas que um dia as pontas dos seus cigarros amaldiçoaram.
Deitamo-nos no sal que nos tinge de branco gelo e fechamos os olhos, sem
dar-nos as mãos. Meu vestido pende e os botões afrouxam-se. É natural que todos
os meus poros clamem por suas unhas. Hoje elas estão claras e confundem-se com
a brisa fria daquela mesma manhã. A natureza gira em círculos incompletos, você
grita e eu fujo, e o ciclo termina com suas cinzas sendo deixadas soltas à
soleira da minha porta fechada.
Nós juramos que casaríamos no outono. Suas
mãos se fechavam nas minhas, você implorava por solidão e eu me agarrava às
mangas das suas roupas. Meus olhos corroíam as sobras do seu desapego. Até
mesmo a pintura velha daquela construção reclamava nossas mentiras e deixava-se
consumir em si mesma. Era tarde, Caleb. Queimar cigarros nos pulsos jamais me
faria ficar, exceto, talvez, o sangue que sujava sempre os seus olhos quando eu
lhe queimava em fotografias velhas.
– O que temos a ver com a vida dos outros?
– Seguro-lhe os ombros, caminhando mais fundo no precipício aonde seu corpo me
atrai. Você se desmancha. Há sempre um quê de ilusionismo nos seus atos, na
forma como suas pestanas se dobram e se reclinam ao pesar das minhas. Eu me
lembro do pó e das formas que desenhávamos na areia fina. Eu me lembro dos seus
poros todos contraídos quando eu lhe tinha nas mãos. Eu me lembro dos seus
pedidos surdos, das suas tosses falsas. Eu me lembro do contorno do seu rosto
enquanto virava a maçaneta da porta pela última vez. E então, não me lembro de
mais nada. – Você me deixará esperando. Virão lhe buscar e eu ficarei aqui,
desenhando sua pele fria em quadros que não o querem.
Meu dedo frio percorre o contorno do seu
maxilar. Seus lábios pálidos conservam todo o cinismo que sua vida lhe
ensinara. Seu sangue purificado pelo tom dos meus cabelos nos mesmos termos que
nós negamos…
– Eu só me pergunto qual seria a sua
desculpa dessa vez. – Eu desço as mãos e passo a língua pelos meus lábios
secos. Todo o meu corpo treme quando eu sorrio. Os rasgos que contornam nossos
olhos se contraem. Sua mão desliza e se afasta. A brisa encobre seu rosto com os
meus cabelos. Você poderia fechar os olhos para que, somente dessa vez, eu
partisse.
– Sabe o que me acalenta, Caleb? – E um dos
meus dedos toca o primeiro botão do seu paletó escuro. Observo as ondas se
aproximarem. A água nos engole como se pertencêssemos à natureza morta dos
retratos que você pintou. – Não se pode acender cigarros nessa umidade.

Caleb :)
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