quinta-feira, 11 de abril de 2013

Castanho Claro


Você se ergueu numa manhã de outubro, quando as cores padeciam em tons claros de um castanho mórbido. As portas dos armários estavam fechadas e as chaves giravam em seus dedos como troféus. Você sorria e punha leite em xícaras para ninguém. No lanche da tarde, esperaríamos visitas dos fantasmas que você matou. As costas de suas mãos marcam minhas costelas. Eu me contraio e deixo que as ondas esfolem suas pernas. Estamos de volta ao local onde nós enterramos os pequenos caixões das filhas que você não quis ter, dos ossos que você não quis roer, das cores com que você pintou com seus dedos aleijados.
Eu lhe observo mover os olhos ao meu colo. Há ali as sardas que um dia as pontas dos seus cigarros amaldiçoaram. Deitamo-nos no sal que nos tinge de branco gelo e fechamos os olhos, sem dar-nos as mãos. Meu vestido pende e os botões afrouxam-se. É natural que todos os meus poros clamem por suas unhas. Hoje elas estão claras e confundem-se com a brisa fria daquela mesma manhã. A natureza gira em círculos incompletos, você grita e eu fujo, e o ciclo termina com suas cinzas sendo deixadas soltas à soleira da minha porta fechada.
Nós juramos que casaríamos no outono. Suas mãos se fechavam nas minhas, você implorava por solidão e eu me agarrava às mangas das suas roupas. Meus olhos corroíam as sobras do seu desapego. Até mesmo a pintura velha daquela construção reclamava nossas mentiras e deixava-se consumir em si mesma. Era tarde, Caleb. Queimar cigarros nos pulsos jamais me faria ficar, exceto, talvez, o sangue que sujava sempre os seus olhos quando eu lhe queimava em fotografias velhas.
– O que temos a ver com a vida dos outros? – Seguro-lhe os ombros, caminhando mais fundo no precipício aonde seu corpo me atrai. Você se desmancha. Há sempre um quê de ilusionismo nos seus atos, na forma como suas pestanas se dobram e se reclinam ao pesar das minhas. Eu me lembro do pó e das formas que desenhávamos na areia fina. Eu me lembro dos seus poros todos contraídos quando eu lhe tinha nas mãos. Eu me lembro dos seus pedidos surdos, das suas tosses falsas. Eu me lembro do contorno do seu rosto enquanto virava a maçaneta da porta pela última vez. E então, não me lembro de mais nada. – Você me deixará esperando. Virão lhe buscar e eu ficarei aqui, desenhando sua pele fria em quadros que não o querem.
Meu dedo frio percorre o contorno do seu maxilar. Seus lábios pálidos conservam todo o cinismo que sua vida lhe ensinara. Seu sangue purificado pelo tom dos meus cabelos nos mesmos termos que nós negamos…
– Eu só me pergunto qual seria a sua desculpa dessa vez. – Eu desço as mãos e passo a língua pelos meus lábios secos. Todo o meu corpo treme quando eu sorrio. Os rasgos que contornam nossos olhos se contraem. Sua mão desliza e se afasta. A brisa encobre seu rosto com os meus cabelos. Você poderia fechar os olhos para que, somente dessa vez, eu partisse.
– Sabe o que me acalenta, Caleb? – E um dos meus dedos toca o primeiro botão do seu paletó escuro. Observo as ondas se aproximarem. A água nos engole como se pertencêssemos à natureza morta dos retratos que você pintou. – Não se pode acender cigarros nessa umidade.


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