terça-feira, 6 de abril de 2010

Foi a última vez que ouvi aquela música. Arrumei as malas e parti. Senti falta do calor e odiei as cobertas no inverno, senti falta do que nunca mais volta. Sei que aqui tem baratas demais, pois a cidade é suja e grande – grade demais. Tantas pessoas e, em nenhuma delas, você. Eu só sei que fui me perdendo aos poucos. Primeiro, ao broto da palmeira que nasce na avenida principal, depois aos assentos dos ônibus e, por último, tive de lavar as mãos nos banheiros da universidade e esquecer o colégio, os balanços, as garrafas d’água e os sorrisos. É isso: Ainda não sorri aqui. Estou soluçando, talvez de medo, talvez. Mas você vem? – Era o espelho outra vez. E eu queria ir para o outro lado, eu queria, ainda tentei passar a mão pelo vidro e o “impossível” me alcançou de novo. A culpa não é minha, meus caros, nunca foi. Só nasci assim: triste.
Só vai entender quem tiver vivido nos meus sapatos. Eu já chorei muito, só quero um casaco – mais um, antes de o verão chegar – para poder enfrentar o mundo até o outro lado da rua, do espelho, do mar. Quero mesmo é mais uma daquelas chuvas torrenciais para me levar embora no barquinho de papel (que já afundou). Mas estou sendo repetitiva? Sim, acho que sim. Só não quero deixar outra lacuna vazia e - Deus! - já fiz tantas promessas sem sequer começar...
Eu moro no 3485, e quem sabe você venha me visitar. Eu ando mesmo precisando de visitas. Não tenho chá, mas posso lhe oferecer café e alguns biscoitos. Venha à tarde, venha à hora que quiser, mas venha. A chama do fogão ainda está acesa e a chave está sob o carpete da entrada. Faça-me uma surpresa, faça-se em casa, faça-me feliz.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

My emptiness, my craziness.

São 06:07 da manhã e eu precisei de um desabafo. Eu estou caída na cadeira azul de rodinha e o computador está quente. Não faz menos de 10 horas que eu estou aqui e eu não escrevi uma frase sequer, ainda. Dois pontos, uma linha. O fato é que estou com medo. E é tão difícil de admitir. Confesso ter pensado em cordas, em navalhas, no forno - aquele livro definitivamente me inspira e faz suicídio parecer tão belo - eu sempre fui um tanto covarde com os outros, de qualquer forma. Mas isso não é uma ameaça. Não dessa vez.
Estou com a expressão "roda-viva" na cabeça. Foi de um texto do Hugo, que ele me pediu pra passar pra inglês. E... é irônico. Eu estou rodeada de ironias, sarcasmo. Eu me sinto tão cruel. Comigo, comigo. Eu tenho nojo dessa minha vontade de sair e gritar no meio da rua:
- Eu sou doente e eu estou doente. Quão fundas minhas olheiras precisam ficar pra que percebam isso?
Eu tenho NOJO de precisar pedir ajuda. Eu sempre fui assim tão fraca? Eu não havia desistido de pisar nos cacos de vidros? Bom, eu achava que sim. Mas eu achava tanta coisa, meu deus. Tanta coisa! E eu nunca roguei por uma palavra, eu não queria me limitar a um vocábulo, mas cheguei a isso. E ri. Por que o que poderia me restar?
Frustração. Foi essa a união de sílabas que eu escolhi. Espero não ser tão patético quanto soa. Mas é mentira, porque eu simplesmente não espero mais nada. Nem de mim e nem de ninguém. Só dói. Dói, dói, dói.

Sweet little love, you have broken me apart. THANKS!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Too little much too late;


Não se atreva a olhar para trás. As alianças perfeitamente redondas brilhavam à luz amarela da igreja. Um padre de mãos postas dava as costas ao público. Derramemos vinho em nossas roupas e dancemos (sujos de vermelho) por liberdade, uma última vez.
- Lucas, você a aceita como sua esposa?
Um silêncio penitencial para nunca mais acordar do transe que lhe levaria às últimas palavras. Uma crítica ferrenha ao crucifixo torto na parede muito branca da igreja.
- Sim.
O padre apressava-se. Os dedos gordos (mantidos às custas do dinheiro colocado nas caixinhas das missas) percorriam a bíblia, como se lesse. Mas tudo era uma farsa, não era?
- Marília, você o aceita como seu esposo?
Ela entreabriu os lábios. Sorriu ao noivo (enforcado pelas alianças douradas) e voltou-se ao padre.
- Sim, eu aceito.
Duas crianças aproximaram-se com almofadas nas mãos. Os anéis amarelos deitados como forcas no estofado vermelho. A dança do vinho, uma hipnose constante. Calma, amigo, mais duas gotas de seu próprio veneno. A receita está pronta. O ano acabou. O medo, não.
Marília apanhou a aliança que a criança loura segurava. A mão do homem à sua frente demorou a se estender. Parecia ainda preso às cordas de fios grossos - uma armadilha. A aliança adentrou seu dedo antes que o último fio de voz lhe corroesse friamente a garganta. O metal frio, inoxidável, rasgando veias, carne e oxigênio. (Dancem no vinho!)
Ele apanhou o anel dourado que ainda jazia (falsa e) inocentemente na almofada. Enfiou-o no dedo da noiva e deu seu último suspiro. O apóstolo - por fim - estava morto.
- Eu vos declaro marido e mulher.
Minutos depois. Lucas ajoelhou-se - já frio - no chão da igreja. Os convidados caminhavam para fora. Sua esposa cumprimentava os pais. A bíblia aberta para enxugar suas gotas de sangue cru e cheirando a ferro velho.
O padre saiu pelos fundos. Bebeu a taça de vinho. A dança havia tido seu fim. As cortinas se fechariam a qualquer momento. Um, dois, três.

Nos sapatos do homem ajoelhado perante o altar, duas palavras: Game Over.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Dois pequenos carvões em brasa. A faca suja ameaçando cair da pia. Tentações da noite, calo-me então. Mas medo - isso - nunca foi meu, de joelhos no colchão, como eu poderia sentir dor? E talvez seja só isso. Dessa vez, uma última vez, eu me esfacelaria em pó de sinapses - dor física não mata, meu bem.
E se os minutos não me engolissem para dentro do seu ruído infernal, eu deitei no mar de rosas e me afoguei - algo mais trágico? Talvez, porém teria de me pedir sangue, das mesmas mãos com as quais sufoquei seu grito. Com o mesmo medo, das mesmas cartas, dos mesmos sussurros na madrugada rasgando e rasgando o que eu gostaria de lembrar, mas não lembro. Só calando a dor de não voltar a ter a minha paz. Eu espero, sim, que morram todas as folhas que secam na calçada, assim como morreu meu amor - suicídios comuns de ladrilho em ladrilho; carne podre no chão do que não foi e do que sequer deveria ter sido.
Dor física jamais seria o suficiente.

domingo, 30 de agosto de 2009

Em desapego e putrefação, queimai-vos.

Dois toques que convergiam à mesma oposição: amá-lo ou matá-lo. Mas dentro de mim suas sílabas em rodopios torciam-me as veias azuis e faziam-me implorar à madeira que me corrompesse um pouco mais do que ele, para que – talvez – de outro modo, eu pudesse fazer em mim a dor que seria dele por conseqüência, e as marcas arroxeadas as quais dormiam comigo nos lençóis amargamente limpos ser-me-iam lembranças eternas desenhadas nas cascas mortas das árvores.

Sujos, nossos dedos tocavam-se fria e parcamente por debaixo da mesa. Embebidos em nossos próprios desejos (tão díspares), absorvíamos a aura disforme da noite, cantando os nossos ensejos em nada graciosos e desejando, ambos, corpos que não os nossos próprios. Tantas mentiras deitadas na toalha suja de vinho, as negras inverdades escondiam-se em suas íris sórdidas.

Os saltos na grama perfuravam a terra, desejava que fosse o meu corpo afundado no chão se aquilo significasse encher as unhas da tua carne morta, mas que pulsava tanto. Fui-me embora, então, mas ficaram no tapete as marcas das palavras com as quais eu te embriaguei e as quais voltaram para debaixo de minha epiderme serrada de asco por ser dela e não meu.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Todo o sangue espalhando-se pelas suas mãos. Um braço ao redor do meu, enquanto o desespero toma conta de mim, eu espero que você guarde o gosto dos meus lábios entre os dentes e que jamais o deixe escapar, pois jamais serei viva como fui hoje.

O relógio ainda marca uma da manhã; queria que fosse qualquer hora que não tão cedo. Até mesmo seis me faria satisfeita, se não fosse formado por um ângulo tão amplo quanto aquele. O mesmo doce e fatal seis que me tirara da madrugada fria e me empurrara para a manhã de verão úmida, quando decidi afogar-me nas nuvens de pó e cinzas, que você fez pra mim.

segunda-feira, 27 de julho de 2009


Os relógios sempre me odiaram. Ontem fez um ano. Eu digo ontem, pois são cinco e oito da manhã. Ou pelo menos deveriam ser. Sei que não tenho sono. E sei também que essa noite foi longa. Ele disse que voltaria. Na verdade, eu acreditei. E eu deveria ter um copo nas mãos de qualquer coisa que contivesse álcool. Química, orgânica, aulas. Estão chegando novamente para acabar com a minha vontade de ser livre e de poder acreditar que um dia colocarei mãos hábeis em objetos e saberei consertá-los. Mãos de mestre, não mais de aprendiz. A dependência e a rotina me matam. Queimam-me como os papéis dos cigarros que ele não fuma mais. E talvez, pergunto-me, o que será de mim quando eu não tiver mais os dedos sujos das palavras que eu não quis escrever? Mas a verdade é que eu nunca quis a verdade. Deitei nos trapos que imaginei ser aqueles que o embalavam no seu leito de morte, mas ele não morreu, não é? Não deveria ser tão dramático. Esse silêncio é que me mata. Eu me recusei a ouvir voz dele, sabia? Porque estava doendo quando ele respondeu àquelas perguntas. Quero ver se esse vai ser só outro texto que eu vou escrever e apagar. Abortos, eu os chamo. Exatamente iguais a ele. Sequer sei se está doente. Eu estou. E - talvez - ele devesse saber. Eu fiz daquela a última noite que doeria ter o nome dele bordado na minha pele de suicida enrustida. Mas eu nunca fui de mandar nos meus vícios. Talvez eu só queira doer um pouco mais. Avisarei quando estiver pronta. Ready, go.