terça-feira, 15 de setembro de 2009
domingo, 30 de agosto de 2009
Em desapego e putrefação, queimai-vos.
Dois toques que convergiam à mesma oposição: amá-lo ou matá-lo. Mas dentro de mim suas sílabas em rodopios torciam-me as veias azuis e faziam-me implorar à madeira que me corrompesse um pouco mais do que ele, para que – talvez – de outro modo, eu pudesse fazer em mim a dor que seria dele por conseqüência, e as marcas arroxeadas as quais dormiam comigo nos lençóis amargamente limpos ser-me-iam lembranças eternas desenhadas nas cascas mortas das árvores.
Sujos, nossos dedos tocavam-se fria e parcamente por debaixo da mesa. Embebidos em nossos próprios desejos (tão díspares), absorvíamos a aura disforme da noite, cantando os nossos ensejos em nada graciosos e desejando, ambos, corpos que não os nossos próprios. Tantas mentiras deitadas na toalha suja de vinho, as negras inverdades escondiam-se em suas íris sórdidas.
Os saltos na grama perfuravam a terra, desejava que fosse o meu corpo afundado no chão se aquilo significasse encher as unhas da tua carne morta, mas que pulsava tanto. Fui-me embora, então, mas ficaram no tapete as marcas das palavras com as quais eu te embriaguei e as quais voltaram para debaixo de minha epiderme serrada de asco por ser dela e não meu.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Todo o sangue espalhando-se pelas suas mãos. Um braço ao redor do meu, enquanto o desespero toma conta de mim, eu espero que você guarde o gosto dos meus lábios entre os dentes e que jamais o deixe escapar, pois jamais serei viva como fui hoje.
O relógio ainda marca uma da manhã; queria que fosse qualquer hora que não tão cedo. Até mesmo seis me faria satisfeita, se não fosse formado por um ângulo tão amplo quanto aquele. O mesmo doce e fatal seis que me tirara da madrugada fria e me empurrara para a manhã de verão úmida, quando decidi afogar-me nas nuvens de pó e cinzas, que você fez pra mim.
segunda-feira, 27 de julho de 2009

segunda-feira, 6 de julho de 2009
As chaves
Pois bem, eu estou em meu ninho, aguardando que ela venha com seus braços gélidos dar-me um último abraço. Eu vejo suas malas todas dispostas em fila do corredor, é hora de partir, mas ela tem medo. Oh, sim, eu vejo o medo escorrendo pelos dedos úmidos dela, enquanto ela escova os cabelos. Eu vejo o medo que corrói aquelas íris amendoadas. Vejo que sua mão treme quando ela risca mais um dia no calendário e se deita ao meu lado para esperar que a madrugada venha inebriá-la com seus sonhos comuns. Ah, mas ela não é comum.
As unhas dela pintadas de um vermelho morto estavam descascadas e roídas – muito roídas. Doía-me na carne, vê-la comer as células mortas que se desprendiam de seus dedos, lentamente. A lentidão sempre me fora extremamente desagradável. Ela que se movia com extrema leveza quando nos sufocávamos – um ao outro – debaixo daqueles lençóis tingidos de vermelho. Ela que deslizava as unhas pela minha carne e me fazia louco em eriçar os pêlos dos braços, desejando-a por cada faísca de cigarro meu que não a queimara ou pelos lábios desenhados nos quadros que ela pintava.
Mas deitado na cama, tudo o que eu podia ver eram as malas dela no corredor a me encarar. E eu observando o trinco da porta, rezando pra que ele girasse ou para ouvir um tilintar de chaves que fosse. Ou os saltos dela que batiam no corredor, simulando a minha pulsação ligeira e farta de tanto esperar. O teto mal iluminado, os lençóis e eu, que me desfazia na fumaça do cigarro apagado dela. O cinzeiro refletia minha angústia e me devolvia um sorriso profundo (de escárnio, eu deveria saber).
Ouvia-a subir as escadas e meter, pelo buraco da fechadura, a chave. Sorrateira, entrou no apartamento, apanhou a mala grande, desfê-la e guardou as roupas com cuidado (para não me acordar) na gaveta de madeira. O seu lado do guarda-roupa ainda estava intacto. Dividíamos tudo: Desde o arroz às tolhas no banheiro ou mesmo os canais favoritos da televisão. Fundi-me aos lençóis, esperando que o corpo (e os olhos mentirosos) dela se deitasse ao meu lado. Mas nada veio. Ouvi quando a água do chuveiro destruiu o cheiro que estava impregnado nela: cheiro dele, eu tinha certeza. Ele que a fazia mentir, ele que a telefonava no meio da noite para lhe dizer algo que fosse tão impuro, a ponto de eu me esconder nas fronhas dos travesseiros com o cheiro dela.
Nas manhãs de domingo, ela sentava-se na beirada do banco e pintava. Pintava com as tintas que talvez lhe devesse colorir também a alma. Pintava rostos e pássaros e desastres e carros que, velozes, cortavam-lhe as ruas. Ela me sufocava com tamanha veracidade nos desenhos. Era sincera apenas ali. Um dia, desenhou-me um rosto masculino. Tinha meus olhos, mas os lábios eram dele – e eu nem precisaria conhecê-lo, para lhe desvendar o segredo.
Um dia – o último dia –, eu a tomei pelos ombros e questionei-a. Ela assumiu. Eu pedi-lhe um nome, ela me disse que não sabia. Eu a perguntei se ela o amava. Ela disse que sim e seus olhos amendoados rasgaram o carpete às minhas costas. Eu a soltei. Fiz minhas malas, desci as escadas e apanhei um taxi. No caminho para o aeroporto, pensei que deveria voltar e queimar-lhe os quadros, queimar-lhe os dedos e deixar em seu corpo as manchas dos meus cigarros, mas não. Ela deveria doer por si só. O taxista me viu as lágrimas pregadas às pálpebras, sorriu-me pelo retrovisor continuou a dirigir. As luzes amarelas da cidade me invadiam as pupilas dilatadas e cheias das fumaças dos cigarros alheios. Cidade suja, eu estava dando adeus. Mas eu bem sei que deus já partira há muito tempo. Dois pontos vermelhos na calçada que passava rápida na janela. Ou era eu?
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Perdido na contradição;
- Como é seu nome, querida?
- Isabel.
- Ainda vive?
- Não.
- Faz tempo, não faz?
- E como.
- Por quê?
- Eu não sei. Mas já sentiu que havia fogo em seus dedos?
- Óh, sim. Perder o controle é bom, mas soube voltar?
- Não. Ainda não.
- A pergunta é: Você quer?
- Talvez. Só tenho certeza da cor das cortinas daquela tarde, meu bem. Não me faça mais perguntas. Selei-me os olhos. Não foi sincero. Eu mesma não fui sincera.
- Não foi sincera?
- Não.
- Como assim?
- Pergunte-me o nome outra vez.
- Como é seu nome?
- Heloísa.
- Você tem o inferno no nome.
- Ha. - Ela riu. - Tenho o inferno em mim, meu bem. E talvez eu nunca queira voltar ao paraíso.
- O que achou do mundo das torturas?
- É o único que nos dá a liberdade do toque, não é?
- Se você diz...
- É o preço a se pagar.
- Então, você quer voltar?
- Sim.
- Às cortinas ou prefere escolher outro destino medíocre?
- Todos eles são. Mas quero algo novo. Meu cárcere.
- Quem? Diga.
- O filho dela.
- Dela? Por que, Heloísa?
- Porque é o errado.
- Você é um erro.
- Sempre fui.
- É hora de descer.
- Que seja agora e que seja indolor.
- Pensei que gostasse de dor.
- E gosto.
- Não entendo.
- Não me entenda. Vamos.
- Vamos.
Pularam. De volta à cena. As cortinas deslizavam com o vibrar fraco do vento que quase morria no silêncio da tarde.
- Volte aqui!
Ele gritava desesperadamente. E a moça havia desaparecido. Uma criança chorava no cômodo ao lado. Havia nascido. A filha dele. O fruto do casamento surdo, mudo e aleijado.
- Como vai ser o nome dela? - Perguntaram à mulher do jovem senhor.
- Heloísa.
domingo, 24 de maio de 2009
Lies for the liars;
E ele sussurrava que prometia levá-la a algum lugar que eu não conhecia. Era um grito de súplica, que eu interpretava como punhais em meu peito. Sem sangue dessa vez; apenas linfa dos insetos que deveriam tê-lo comido antes que ele matasse.
Prosmicuidade descia em ondas pelas paredes descascadas. Tudo em amarelo e azul para que eu jamais pudesse enxergar suas reais intenções com o corpo daquelas mulheres despidas. Que talvez fossem as mais óbvias possíveis: Satisfazer seu ego.
Feche essas janelas ou realmente espera que eu faça isso por você? Primeiro, ele tentou foder com a própria vida e com a das mulheres que pudesse tocar, depois ele se satisfez em atirar nos outros seus cacos de taças quebradas, mas agora seus desejos cruéis permitem que ele mate. E ele mata só com os olhos. Depois, senta-se em seu banco de madeira e pinta.
Colore os rostos mortos de suas modelos, como um dia desenharam a farsa da Gioconda (e o seu sorriso que não existiu) e agora ela dorme sozinha numa ala escura do Louvre. Ninguém a toca pois sua pele é carne em putrefação. Ele, não. Ele dá saúde às maçãs do rosto de suas pequenas bonecas de tinta e carvão. Inibe um pouco do brilho das íris coloridas delas para que não se permitam olhar demais. Via, na beleza delas, sua violência que aos poucos escorria ao pincel e perdia-se nos vidros de tinta abertos sob a bancada.
"Se você ainda não aprendeu o nome depois da terceira noite, é melhor que os mate."Ele me disse antes de partir para o mar e nunca mais voltar. Ele havia arrancado seus olhos na noite anterior e jogou-os em um vidro com éter e bálsamo. Embalsamados como corpos, seus medos. Um deles: Ver. Livre de sons e distúrbios, ele pintou a si mesmo morto e ensanguentado. Era um adeus e eu sabia. Mas ao chegar ao cais, só pude acenar aos seus medos se dilatando nas ondas altas e perdidas da eternidade que jamais conheceremos. Uma delas veio e me engoliu.
