domingo, 9 de outubro de 2011

Para lhe reconstruir;

Como funéreo prenúncio, a brisa fria lhe carrega os cabelos para longe do meu rosto. Não vê que suas unhas estão sujas de areia e já não suspendem meu medo acima de nossas expectativas? Acabo-me de chegar à marca que seu corpo deixou na sombra morta de uma gramínea. Você está sempre partindo e assim se foi novamente com a onda e sua espuma, cor de vazio e tempestade fraca. Todo o cenário conspira sobre nós e os solstícios que não nos pertencerá jamais. Você está sempre partindo.

O vulto das vestes frouxas remanescem imitando o movimento que faria o meu braço se eu ousasse lhe tocar. Mas desfaleceria aos meus pés e seria carregada para embalsamarem seus ossos com o sal que se prende em minhas sardas queimadas. É um delírio, minha querida, tanto de leveza quanto de surradas lembranças encostadas em uma cama que sequer existiu. É meu dedo que se enfia em seu cabelo (a sua nuca fria e contraída) e lhe põe de pé. Estou lhe desafiando a despedaçar a prometida eternidade de nossos passos em areia molhada. Apague-as, se quiser. O que eu tenho está aqui, esvoaçando talvez enquanto você se esquece de que a maré está enchendo.

Meus olhos têm medo e eu sei, mas os seus... os seus têm sede e talvez, embriagados, possam se afogar no insalubre castanho dos meus. Escolha o mar, querida, parece-me menos fatal. Mas eu dei um passo à frente e nossas bocas salgadas quase se tocaram – não é essa a hora em que você desaparece?

– Serei sempre assim? – Meus murmúrios são abafados pelas ondas que quase alcançam nossos pés descalços agora. – Agarrado ao seu vestido enquanto você se afoga no lago que eu escolher?

Talvez por impulso ou pelo frio, minhas unhas escorregam da nuca às suas costas e tocam a alça fina do vestido branco que você escolheu para se casar com a minha enfermidade. Afasto-a pelo comprimento do seu ombro; faz frio e eu tremo sem mais me esconder dos seus olhos impiedosos. Quando foi que você decidiu que eu morreria em seus braços? Talvez quando a maré encher, você possa...

Os dedos ainda tecem as roupas que você teimou em rasgar. Não vê que visto os trapos que você abandonou nas gavetas daquilo que um dia chamamos de lar? Eu estou aqui agora, você pode me tocar, se quiser, mas meus contornos são difusos e isso pertenceria a um sonho se eu não soubesse que sou incapaz de confundir o seu cheiro com o de qualquer outra criatura em vida.

O mar tenta nos afogar (ou é apenas o seu corpo que me empurra em direção às ondas altas?). Meus olhos gritam para que você abra os seus e me enxergue e me faça suplicar novamente pelo vinho que embaçou nossos dedos e nos delatou ao mundo. E o mundo todo aqui definha. Não dói. Não dói quando suas unhas tentam me convencer a ficar (como se algum dia eu ousasse partir) e o frio dos seus dedos encobre a palidez suave do meu antebraço. Sua voz lhe sai suave, apesar de conter impropérios. Ouvindo minhas preces, o vento é quase capaz de lhe enforcar.

– Não me parece mais tão viva. – Meu indicador perpassa sua jugular, os batimentos contaminam meu tato e nós dançamos em um compasso amaldiçoado. – E se eu lhe deixasse partir? Iria convidar minhas gêmeas de alma para a sua cova? Ou desmoronaria?

Minha mão passa rápida às costas do seu pescoço e lhe puxa para um beijo que sufoca em si mesmo. Eu abro os olhos. Sua pele ainda é lisa mesmo depois dos seus dezessete suicídios em sequência. Você penetra em minhas feridas e as faz arderem, abro os lábios no desejo de gritar, mas – em oposição – sorrio, como que aceitando sua sina que há muito embriagou a minha.
Ontem dediquei a noite a você. E adivinhe só. Acabei chorando quando o sol nasceu. Gostaria de saber por quê eu nunca escolho os finais felizes.

– Leve-me embora.

As ondas convergem em roncos surdos. Não se divide mais a terra da água cinzenta; o céu parece refletir a sua expressão. Por um momento, eu penso que poderia tocar as nuvens. Você me arranha e me traz de volta. Acho que está começando a chover agora.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Do soldado que fui

Acordou pensando estar doente. Os olhos vermelhos denunciavam a noite em claro. Mas era apenas febre. E febre do que? De querer e de não poder tocar. De um dia rasgar os olhos para não mais ver o verdadeiro cinza de que era feito o mundo. A febre das feridas entre os dedos, a febre que afligia os sobreviventes da guerra, a febre inebriante do sofrer calado. Percebe?
Um dia lhe contaram sobre as flores amarelas, de mil cores que ele não poderia ver. Um amputado, mudo e daltônico sobrevivente. Mas havia a febre que o consumia e o fazia diferente. Os olhos vermelhos das madrugadas sem fim herdados pelos filhos doentes. O mundo em escalas de cinza, variando da prata ao resto que a chama apagada do fogo deixava na lareira em noite fria.
Era tarde, era tarde, ele sabia, mas havia algo. Talvez a febre. Sempre a febre a crepitar em seus ouvidos queimados. Havia algo que o fazia arrancar os cobertores e andar pela casa. A arma na mão, procurando pelos fantasmas da cor da cinza. Um som, um tiro. Cristais pequenos pelo chão. Foi a primeira vez que viu o sangue. O sangue cinza de seu filho mais novo. No chão. E a febre que não morria. Só os outros... Só os outros. E o seu nome enclausurado em veias mortas. Pobre soldado, sozinho, solitário. Soldado.
Murcharam, então, todas as flores e ao cinza sucumbiram. Fecharam-se os olhos e da lareira se ouviu apenas o som do fogo se apagando. O fogo que a tudo consumiria, exceto - sempre e claro, claro como o cinza de minhas mágoas - a febre.

sábado, 9 de outubro de 2010

A escolha que não fiz;

É mais forte que eu. Se é dor, já não dói o bastante. Se é colossal, vive em pequenas partes de mim. Se foi a corda, não sei. Sei apenas que quebrou e vidro quebrado não pode ser consertado. Sei apenas que como queimadura em pele fresca, meus dedos estão pretos como carvão! E quem foi que eu matei?
É mais forte que eu. Vem de repente e como tudo que resta é apenas a ansiedade por uma nova madrugada, deitarei em lençóis alheios e prometo não mais sonhar. Sonhar com a droga. Com a droga. A droga que se aloja no canto do peito esquerdo. Eu preciso do pó. Do pó que foi você. Da sombra que fui eu.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O presente

- Há algo aqui hoje à noite.
É uma sala escura. As paredes estão derretendo e há muita (muita) água no chão.
- Vá dormir.
- É insônia, meu bem.
- É quase dia.
- Talvez seja quase noite outra vez. Veja bem.
- Vá dormir. - Ele repete com seu timbre seco e se vira, repuxando o lençol.
Eu me levanto. Lavo as mãos sujas. Apanho um copo de leite, mas dele não bebo uma gota sequer.
- Com o que você sonhou a noite passada? - As palavras saem da minha boca antes que eu possa controlar.
- Não quero falar disso.
- Você pensa demais antes de me contar, sabe...?
- Eu não preciso. Cale-se ou vai precisar se retirar.
Eu solto um riso por ele ainda pensar que eu sou sua vítima. Ninguém conseguiu perceber a ironia dos fatos?
- Por que eu sempre sonho com você?
- Porque é viciada em...
- Violência. - Completamos a frase juntos. Eu sabia. Eu sempre soube.
- O que eu faço nos seus sonhos? - Ele pareceu interessado. Pela primeira vez naquela noite.
- Você morre.
- Por quê?
- Porque eu lhe mato. Todas as vezes. - Contraí os pulsos ao dizer aquilo. Pequenos feixes de luz começavam a irromper pelas janelas que já desapareciam.
- Você vem dormir agora?
- Sim.
Apanho a faca na cozinha. É hora de pôr fim ao sonho repetitivo. Agora entendo porque as paredes estavam desaparecendo. Não passaria das cinco da manhã, dessa vez. Deito-me ao lado dele para repetir a cena de todas as noites. Os lençóis, todos, banhados de sangue... Você quer ver?

domingo, 6 de junho de 2010

O dia certo

Perguntaram-me uma vez qual é dia certo para morrer. Eu não respondi. Nunca se está acostumado à morte, mas é a coisa mais certa do mundo. Só se tem certeza de duas coisas na vida: o passado e a morte.
Então, decidindo mudar de assunto, eu me pergunto, existe dia mais mórbido que domingo? Certamente que não. Caímos do ápice do sábado à noite (borbulhando em sensações) ao funéreo domingo à tarde. Podemos já encomendar as velas? E disso, talvez, eu tire outra certeza, mas é tão chato ficar vagando entre as paredes da mesma casa. No domingo, devem ter criado a palavra "rotina". Ou, talvez, "suicídio". Mas não "coragem". Fico vagando, como vagam as almas... Que tentam entender. Ou, talvez, que apenas tentam.
Há dois tipos de loucura nos fins de semana. E quem já (sobre)viveu (não no sentido amplo da palavra) para contar a história desses dois dias, sabe do que eu estou falando. Faz sentido? Não faz sentido. O dia certo? Domingo.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Rua do Sacrifício (When you left)


Ligeiramente suicidas, duas sombras desciam o asfalto da alameda. Pintaram a cidade de preto e de cinza. Como se cinza fosse cor e preto, apenas o aviso. Um carro queimava o chão, - e, por Deus, como sinto falta do asfalto! - um homem de cabelos sujos estralava os dedos, murmurando na sua poesia ininteligível. Seu nome perdera-se no fluxo inconstante de meus olhos desfeitos. Mil buracos de bala nos corpos das pobres moças na Rua do Sacrifício. As minhas balas de efusivas cores, agora descendo no sangue que banha os pés dele. Seu nome, na pétala do não-te-esqueças-de-mim, agonizando nas mãos. Ironia, o primeiro sintoma da decadência.
Há dois verbos na iminência de escaparem-me à boca. To hurt e to hunt. E uma das almas - pois a outra havia sumido - dizia:
- Não deve começar assim. O começo disso tudo foi quando eu gritei: Stop hurting me.
Ao passo que o homem lhe dizia com muita convicção:
- O começo disso tudo foi quando você gritou, apenas. Você nunca desejou um fim, minha cara. Quem tem a dor como melhor amiga, nunca deseja livrar-se dela.
Nas próximas linhas, a inocência assassina-me em dois atos:
- Se nem mesmo lembro-me do seu nome, é chegada a hora do segundo sinal. Por que está me perseguindo?
- Porque eu sou seu melhor amigo. E melhores amigos nunca abandonam uns aos outros.
Pense em uma taça de cristal. Pense em duas mãos finas e alvas. Pense na droga que já fez efeito demais. Agora, tenha em mente apenas a lembrança vaga de mais um crime disposto na minha voz:
- Lembra-se do cianureto? -Era eu. Sempre fui eu.
- I would never forget the cyanide.
- Você bebeu, não foi?
- Não, minha cara... Você bebeu.
Toda a escuridão das portas nos meus olhos de vidro quebrado. O asfalto me absorveu por direito. Do pó viemos, ao pó retornaremos. Dê-me as últimas gotas da sua poesia desgarrada. Hão de morrerem todas as flores, mas não a florescência. The blossom¹, dear, won't go away. Então, a alma da esquerda me reapareceu diante dos olhos. No final, foi apenas você quem partiu.
- Minha cara, nós somos as sombras esta noite. Você deveria saber, em todas as noites. Mas você também deveria saber que sombra com luz se apaga, mas trevas...
Um corpo no asfalto, descobrimos, então, quem está em perigo.
- ... Mas trevas com luz se propagam. Agora compreende o que acontece quando se brinca com coisas como... eu?
Sem jamais se esquecer das boas maneira, ele me deita no asfalto e eu fecho os olhos. O beijo não vem. As duas sombras descem a rua e perdem-se nos muros. E ele me diz as últimas notícias do dia:
- E você nunca cansará, sabe por que?
Toma-me da mão, quando nem mais tato tenho. Acovarda-se e enfia-me um anel no dedo. O mesmo anel que perdi. Dessa vez, espero que parta para nunca mais voltar.
- Because misery² is your best friend. And misery - as me - may like to play with toys - as you.

¹ Blossom: florescência, florescer. ² Misery: desfortúnio, dor.

(Créditos à Jéssica Pedrosa pelas falas do personagem masculino e ao próprio personagem masculino: uma paixão em duas vidas, do qual me apossei por hoje.)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Foi a última vez que ouvi aquela música. Arrumei as malas e parti. Senti falta do calor e odiei as cobertas no inverno, senti falta do que nunca mais volta. Sei que aqui tem baratas demais, pois a cidade é suja e grande – grade demais. Tantas pessoas e, em nenhuma delas, você. Eu só sei que fui me perdendo aos poucos. Primeiro, ao broto da palmeira que nasce na avenida principal, depois aos assentos dos ônibus e, por último, tive de lavar as mãos nos banheiros da universidade e esquecer o colégio, os balanços, as garrafas d’água e os sorrisos. É isso: Ainda não sorri aqui. Estou soluçando, talvez de medo, talvez. Mas você vem? – Era o espelho outra vez. E eu queria ir para o outro lado, eu queria, ainda tentei passar a mão pelo vidro e o “impossível” me alcançou de novo. A culpa não é minha, meus caros, nunca foi. Só nasci assim: triste.
Só vai entender quem tiver vivido nos meus sapatos. Eu já chorei muito, só quero um casaco – mais um, antes de o verão chegar – para poder enfrentar o mundo até o outro lado da rua, do espelho, do mar. Quero mesmo é mais uma daquelas chuvas torrenciais para me levar embora no barquinho de papel (que já afundou). Mas estou sendo repetitiva? Sim, acho que sim. Só não quero deixar outra lacuna vazia e - Deus! - já fiz tantas promessas sem sequer começar...
Eu moro no 3485, e quem sabe você venha me visitar. Eu ando mesmo precisando de visitas. Não tenho chá, mas posso lhe oferecer café e alguns biscoitos. Venha à tarde, venha à hora que quiser, mas venha. A chama do fogão ainda está acesa e a chave está sob o carpete da entrada. Faça-me uma surpresa, faça-se em casa, faça-me feliz.