terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Por debaixo de sua bela capa de veludo verde-escuro, eu ainda podia ver seus olhos que brilhavam com malícia (para mim?). Aquilo doía. Observá-lo, sem lhe poder tocar. E eu podia sentir os poros de sua pele se dilatando por entre os meus dedos. Meros devaneios. Era o preço a se pagar por todos aqueles anos de mentiras. Fodam-se as promessas que eu fiz, então, porque elas de nada valiam agora. Eu me tornara individualista e eu queria (Ah, sim, queria) aqueles olhos para mim. Descobri tarde demais que já eram do mundo, jamais meus.
A música estava acabando, mas os cabelos dele ainda não haviam se movido com o vento. Estava morto e não queria me dizer? Covarde, eu lhe chamaria, se ainda restasse ar no meu peito. Nosso tempo está acabando!, eu queria gritar por entre os meus dentes frágeis. Mas ele não olhava para mim. Continuava a observar as folhas (elas já morreram, não vê?) que o vento levava para longe do seu toque. Eu estava tão perto. Venha... E me faça esquecer que falta tempo demais.
O vidro do meu relógio rachou com um estalo, mas não foi o suficiente para quebrar minha concentração. Ele podia parar o tempo. Eu era cega ou queria estar para não ver que ele era o meu mau, puro e simples assim.
Ele queria mentir? Ótimo, porque eu estava disposta a ser guiada pelos seus dedos até o ponto em que meus pés ficassem sem pele. Mas ele não me levou. Levantou-se dali com a capa ainda arrastando no chão, juntando as folhas que pudera ainda alcançar e foi-se, como vai o vento numa noite fria. Ele não olhou para trás e ainda assim eu esperei. Talvez eu ainda esteja naquele jardim morto... Talvez eu ainda esteja presa em alguma página de algum livro que ele leu e esqueceu por cima de alguma estante. Ele tinha uma capa e algumas folhas; e eu?

Nenhum comentário:

Postar um comentário