Como corpos embalsamados, eu via, nos olhos dele, seus pesadelos flutuarem em órbitas descontínuas. As pontas de um maço de cigarros velhos e molhados escorriam em água negra pelas entrelinhas do piso de madeira. Mas era mentira, não havia cigarros. Havia apenas os olhos dele e alguns livros de poesia empilhados nas estantes cheias de cupim. O dia tinha seu fim. A janela aberta, queimava seus demônios com a luz do sol. Não por muito tempo. Logo, eu poderia entrar e banhar a alma dele em sangue e fel. Mal sabia eu que fel já havia o suficiente na língua dele. Língua que só tocara a minha em um beijo que eu imaginei. Mas a cor dos quadros já ia desaparecendo. Aos poucos, tornavam-se monocromáticos como, um dia, foram o céu e a lua da madrugada assassina.
E ele sussurrava que prometia levá-la a algum lugar que eu não conhecia. Era um grito de súplica, que eu interpretava como punhais em meu peito. Sem sangue dessa vez; apenas linfa dos insetos que deveriam tê-lo comido antes que ele matasse.
Prosmicuidade descia em ondas pelas paredes descascadas. Tudo em amarelo e azul para que eu jamais pudesse enxergar suas reais intenções com o corpo daquelas mulheres despidas. Que talvez fossem as mais óbvias possíveis: Satisfazer seu ego.
Feche essas janelas ou realmente espera que eu faça isso por você? Primeiro, ele tentou foder com a própria vida e com a das mulheres que pudesse tocar, depois ele se satisfez em atirar nos outros seus cacos de taças quebradas, mas agora seus desejos cruéis permitem que ele mate. E ele mata só com os olhos. Depois, senta-se em seu banco de madeira e pinta.
Colore os rostos mortos de suas modelos, como um dia desenharam a farsa da Gioconda (e o seu sorriso que não existiu) e agora ela dorme sozinha numa ala escura do Louvre. Ninguém a toca pois sua pele é carne em putrefação. Ele, não. Ele dá saúde às maçãs do rosto de suas pequenas bonecas de tinta e carvão. Inibe um pouco do brilho das íris coloridas delas para que não se permitam olhar demais. Via, na beleza delas, sua violência que aos poucos escorria ao pincel e perdia-se nos vidros de tinta abertos sob a bancada.
"Se você ainda não aprendeu o nome depois da terceira noite, é melhor que os mate."Ele me disse antes de partir para o mar e nunca mais voltar. Ele havia arrancado seus olhos na noite anterior e jogou-os em um vidro com éter e bálsamo. Embalsamados como corpos, seus medos. Um deles: Ver. Livre de sons e distúrbios, ele pintou a si mesmo morto e ensanguentado. Era um adeus e eu sabia. Mas ao chegar ao cais, só pude acenar aos seus medos se dilatando nas ondas altas e perdidas da eternidade que jamais conheceremos. Uma delas veio e me engoliu.
domingo, 24 de maio de 2009
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"Uma delas veio e me engoliu."
ResponderExcluirmuito muito bom, uma pena que seja tão difícil de enxergar ;D
Dificil ter opnião, é muita informação.
ResponderExcluirSó posso dizer que é bom, ninguém gosta de não entender, mas esses não tem curiosidades sobre o mundo e vão continuar apenas seguindo a fila. E você definitivamente fez sua fila.
P.S. : Te sigo no twitter -Q
P.S.2 : Piada besta u.u
Bah, eu também adorei a última parte.. a da onda. Lembra um daqueles contos famosos de pessoas famosas, e eu bem tenho confiança de que se tornará um. :]
ResponderExcluirAdorei a narrativa e as colocações marcantes. Me impressionou, o que é sempre bom. \õ
Continue escrevendo, Camila. *-*
Seria um erro comentar sobre o texto?
ResponderExcluirGosto das dúvidas que ele me sugere e ainda mais das incertezas que firmei enquanto lia. As suposições que lancei às cegas, tentando desvendar as seguintes linhas.
Ele não conquistou o meu apreço(o homem), não saberia dizer exatamente o porquê, mas a narradora, sim. Adorei como os detalhes são impostos por ela. Depois do céu, um dos objetos que mais gosto de frisar são os olhos, que não deixam de ser céus.
Enfim, Camila. Excelente texto.