quarta-feira, 17 de junho de 2009

Perdido na contradição;

Se ambos fossem pegues ali, na sala de estar... A qual crime seriam condenados? Injúria? Desobediência a um casamento surdo, mudo e aleijado? Ah, não, não, meus caros. A história começa em dois parágrafos atrás: Quando ele a beijou com força e as cortinas deveriam ter pegado fogo, para lhes desviarem as atenções. Mas foi comum. Apenas platonismo transformado em toques de peles e gotas de saliva. O realismo nunca foi meu, nem eu espero que um dia seja. Havia ali muito mais. Porém, o sangue de ambos desejava apenas o segredo que eles poderiam guardar debaixo de suas unhas e esconder pela eternidade aqueles olhos de cristais não lapidados. É aqui onde começo, mas, na verdade, era aqui onde eu deveria terminar.
- Como é seu nome, querida?
- Isabel.
- Ainda vive?
- Não.
- Faz tempo, não faz?
- E como.
- Por quê?
- Eu não sei. Mas já sentiu que havia fogo em seus dedos?
- Óh, sim. Perder o controle é bom, mas soube voltar?
- Não. Ainda não.
- A pergunta é: Você quer?
- Talvez. Só tenho certeza da cor das cortinas daquela tarde, meu bem. Não me faça mais perguntas. Selei-me os olhos. Não foi sincero. Eu mesma não fui sincera.
- Não foi sincera?
- Não.
- Como assim?
- Pergunte-me o nome outra vez.
- Como é seu nome?
- Heloísa.
- Você tem o inferno no nome.
- Ha. - Ela riu. - Tenho o inferno em mim, meu bem. E talvez eu nunca queira voltar ao paraíso.
- O que achou do mundo das torturas?
- É o único que nos dá a liberdade do toque, não é?
- Se você diz...
- É o preço a se pagar.
- Então, você quer voltar?
- Sim.
- Às cortinas ou prefere escolher outro destino medíocre?
- Todos eles são. Mas quero algo novo. Meu cárcere.
- Quem? Diga.
- O filho dela.
- Dela? Por que, Heloísa?
- Porque é o errado.
- Você é um erro.
- Sempre fui.
- É hora de descer.
- Que seja agora e que seja indolor.
- Pensei que gostasse de dor.
- E gosto.
- Não entendo.
- Não me entenda. Vamos.
- Vamos.
Pularam. De volta à cena. As cortinas deslizavam com o vibrar fraco do vento que quase morria no silêncio da tarde.
- Volte aqui!
Ele gritava desesperadamente. E a moça havia desaparecido. Uma criança chorava no cômodo ao lado. Havia nascido. A filha dele. O fruto do casamento surdo, mudo e aleijado.
- Como vai ser o nome dela? - Perguntaram à mulher do jovem senhor.
- Heloísa.

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