terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Too little much too late;


Não se atreva a olhar para trás. As alianças perfeitamente redondas brilhavam à luz amarela da igreja. Um padre de mãos postas dava as costas ao público. Derramemos vinho em nossas roupas e dancemos (sujos de vermelho) por liberdade, uma última vez.
- Lucas, você a aceita como sua esposa?
Um silêncio penitencial para nunca mais acordar do transe que lhe levaria às últimas palavras. Uma crítica ferrenha ao crucifixo torto na parede muito branca da igreja.
- Sim.
O padre apressava-se. Os dedos gordos (mantidos às custas do dinheiro colocado nas caixinhas das missas) percorriam a bíblia, como se lesse. Mas tudo era uma farsa, não era?
- Marília, você o aceita como seu esposo?
Ela entreabriu os lábios. Sorriu ao noivo (enforcado pelas alianças douradas) e voltou-se ao padre.
- Sim, eu aceito.
Duas crianças aproximaram-se com almofadas nas mãos. Os anéis amarelos deitados como forcas no estofado vermelho. A dança do vinho, uma hipnose constante. Calma, amigo, mais duas gotas de seu próprio veneno. A receita está pronta. O ano acabou. O medo, não.
Marília apanhou a aliança que a criança loura segurava. A mão do homem à sua frente demorou a se estender. Parecia ainda preso às cordas de fios grossos - uma armadilha. A aliança adentrou seu dedo antes que o último fio de voz lhe corroesse friamente a garganta. O metal frio, inoxidável, rasgando veias, carne e oxigênio. (Dancem no vinho!)
Ele apanhou o anel dourado que ainda jazia (falsa e) inocentemente na almofada. Enfiou-o no dedo da noiva e deu seu último suspiro. O apóstolo - por fim - estava morto.
- Eu vos declaro marido e mulher.
Minutos depois. Lucas ajoelhou-se - já frio - no chão da igreja. Os convidados caminhavam para fora. Sua esposa cumprimentava os pais. A bíblia aberta para enxugar suas gotas de sangue cru e cheirando a ferro velho.
O padre saiu pelos fundos. Bebeu a taça de vinho. A dança havia tido seu fim. As cortinas se fechariam a qualquer momento. Um, dois, três.

Nos sapatos do homem ajoelhado perante o altar, duas palavras: Game Over.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Dois pequenos carvões em brasa. A faca suja ameaçando cair da pia. Tentações da noite, calo-me então. Mas medo - isso - nunca foi meu, de joelhos no colchão, como eu poderia sentir dor? E talvez seja só isso. Dessa vez, uma última vez, eu me esfacelaria em pó de sinapses - dor física não mata, meu bem.
E se os minutos não me engolissem para dentro do seu ruído infernal, eu deitei no mar de rosas e me afoguei - algo mais trágico? Talvez, porém teria de me pedir sangue, das mesmas mãos com as quais sufoquei seu grito. Com o mesmo medo, das mesmas cartas, dos mesmos sussurros na madrugada rasgando e rasgando o que eu gostaria de lembrar, mas não lembro. Só calando a dor de não voltar a ter a minha paz. Eu espero, sim, que morram todas as folhas que secam na calçada, assim como morreu meu amor - suicídios comuns de ladrilho em ladrilho; carne podre no chão do que não foi e do que sequer deveria ter sido.
Dor física jamais seria o suficiente.

domingo, 30 de agosto de 2009

Em desapego e putrefação, queimai-vos.

Dois toques que convergiam à mesma oposição: amá-lo ou matá-lo. Mas dentro de mim suas sílabas em rodopios torciam-me as veias azuis e faziam-me implorar à madeira que me corrompesse um pouco mais do que ele, para que – talvez – de outro modo, eu pudesse fazer em mim a dor que seria dele por conseqüência, e as marcas arroxeadas as quais dormiam comigo nos lençóis amargamente limpos ser-me-iam lembranças eternas desenhadas nas cascas mortas das árvores.

Sujos, nossos dedos tocavam-se fria e parcamente por debaixo da mesa. Embebidos em nossos próprios desejos (tão díspares), absorvíamos a aura disforme da noite, cantando os nossos ensejos em nada graciosos e desejando, ambos, corpos que não os nossos próprios. Tantas mentiras deitadas na toalha suja de vinho, as negras inverdades escondiam-se em suas íris sórdidas.

Os saltos na grama perfuravam a terra, desejava que fosse o meu corpo afundado no chão se aquilo significasse encher as unhas da tua carne morta, mas que pulsava tanto. Fui-me embora, então, mas ficaram no tapete as marcas das palavras com as quais eu te embriaguei e as quais voltaram para debaixo de minha epiderme serrada de asco por ser dela e não meu.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Todo o sangue espalhando-se pelas suas mãos. Um braço ao redor do meu, enquanto o desespero toma conta de mim, eu espero que você guarde o gosto dos meus lábios entre os dentes e que jamais o deixe escapar, pois jamais serei viva como fui hoje.

O relógio ainda marca uma da manhã; queria que fosse qualquer hora que não tão cedo. Até mesmo seis me faria satisfeita, se não fosse formado por um ângulo tão amplo quanto aquele. O mesmo doce e fatal seis que me tirara da madrugada fria e me empurrara para a manhã de verão úmida, quando decidi afogar-me nas nuvens de pó e cinzas, que você fez pra mim.

segunda-feira, 27 de julho de 2009


Os relógios sempre me odiaram. Ontem fez um ano. Eu digo ontem, pois são cinco e oito da manhã. Ou pelo menos deveriam ser. Sei que não tenho sono. E sei também que essa noite foi longa. Ele disse que voltaria. Na verdade, eu acreditei. E eu deveria ter um copo nas mãos de qualquer coisa que contivesse álcool. Química, orgânica, aulas. Estão chegando novamente para acabar com a minha vontade de ser livre e de poder acreditar que um dia colocarei mãos hábeis em objetos e saberei consertá-los. Mãos de mestre, não mais de aprendiz. A dependência e a rotina me matam. Queimam-me como os papéis dos cigarros que ele não fuma mais. E talvez, pergunto-me, o que será de mim quando eu não tiver mais os dedos sujos das palavras que eu não quis escrever? Mas a verdade é que eu nunca quis a verdade. Deitei nos trapos que imaginei ser aqueles que o embalavam no seu leito de morte, mas ele não morreu, não é? Não deveria ser tão dramático. Esse silêncio é que me mata. Eu me recusei a ouvir voz dele, sabia? Porque estava doendo quando ele respondeu àquelas perguntas. Quero ver se esse vai ser só outro texto que eu vou escrever e apagar. Abortos, eu os chamo. Exatamente iguais a ele. Sequer sei se está doente. Eu estou. E - talvez - ele devesse saber. Eu fiz daquela a última noite que doeria ter o nome dele bordado na minha pele de suicida enrustida. Mas eu nunca fui de mandar nos meus vícios. Talvez eu só queira doer um pouco mais. Avisarei quando estiver pronta. Ready, go.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

As chaves

E deitado na cama, eu via o teto mal iluminado pelas luzes amarelas da rua. Cidade suja, cidade crua, nua, podre. Eu estava esfacelando a carne dos meus dedos e jogando-as sobre os lençóis que ela tingira de vermelho. Ah, e como gostava de vermelho. Lembro –me bem de que, vez por outra, olhava-me com aqueles olhos grandes e amendoados e, sem pedir, me beijava com a sede de um passarinho no verão. Mas agora já não mais é verão e todos os pássaros dormem em seus ninhos.
Pois bem, eu estou em meu ninho, aguardando que ela venha com seus braços gélidos dar-me um último abraço. Eu vejo suas malas todas dispostas em fila do corredor, é hora de partir, mas ela tem medo. Oh, sim, eu vejo o medo escorrendo pelos dedos úmidos dela, enquanto ela escova os cabelos. Eu vejo o medo que corrói aquelas íris amendoadas. Vejo que sua mão treme quando ela risca mais um dia no calendário e se deita ao meu lado para esperar que a madrugada venha inebriá-la com seus sonhos comuns. Ah, mas ela não é comum.
As unhas dela pintadas de um vermelho morto estavam descascadas e roídas – muito roídas. Doía-me na carne, vê-la comer as células mortas que se desprendiam de seus dedos, lentamente. A lentidão sempre me fora extremamente desagradável. Ela que se movia com extrema leveza quando nos sufocávamos – um ao outro – debaixo daqueles lençóis tingidos de vermelho. Ela que deslizava as unhas pela minha carne e me fazia louco em eriçar os pêlos dos braços, desejando-a por cada faísca de cigarro meu que não a queimara ou pelos lábios desenhados nos quadros que ela pintava.
Mas deitado na cama, tudo o que eu podia ver eram as malas dela no corredor a me encarar. E eu observando o trinco da porta, rezando pra que ele girasse ou para ouvir um tilintar de chaves que fosse. Ou os saltos dela que batiam no corredor, simulando a minha pulsação ligeira e farta de tanto esperar. O teto mal iluminado, os lençóis e eu, que me desfazia na fumaça do cigarro apagado dela. O cinzeiro refletia minha angústia e me devolvia um sorriso profundo (de escárnio, eu deveria saber).
Ouvia-a subir as escadas e meter, pelo buraco da fechadura, a chave. Sorrateira, entrou no apartamento, apanhou a mala grande, desfê-la e guardou as roupas com cuidado (para não me acordar) na gaveta de madeira. O seu lado do guarda-roupa ainda estava intacto. Dividíamos tudo: Desde o arroz às tolhas no banheiro ou mesmo os canais favoritos da televisão. Fundi-me aos lençóis, esperando que o corpo (e os olhos mentirosos) dela se deitasse ao meu lado. Mas nada veio. Ouvi quando a água do chuveiro destruiu o cheiro que estava impregnado nela: cheiro dele, eu tinha certeza. Ele que a fazia mentir, ele que a telefonava no meio da noite para lhe dizer algo que fosse tão impuro, a ponto de eu me esconder nas fronhas dos travesseiros com o cheiro dela.
Nas manhãs de domingo, ela sentava-se na beirada do banco e pintava. Pintava com as tintas que talvez lhe devesse colorir também a alma. Pintava rostos e pássaros e desastres e carros que, velozes, cortavam-lhe as ruas. Ela me sufocava com tamanha veracidade nos desenhos. Era sincera apenas ali. Um dia, desenhou-me um rosto masculino. Tinha meus olhos, mas os lábios eram dele – e eu nem precisaria conhecê-lo, para lhe desvendar o segredo.
Um dia – o último dia –, eu a tomei pelos ombros e questionei-a. Ela assumiu. Eu pedi-lhe um nome, ela me disse que não sabia. Eu a perguntei se ela o amava. Ela disse que sim e seus olhos amendoados rasgaram o carpete às minhas costas. Eu a soltei. Fiz minhas malas, desci as escadas e apanhei um taxi. No caminho para o aeroporto, pensei que deveria voltar e queimar-lhe os quadros, queimar-lhe os dedos e deixar em seu corpo as manchas dos meus cigarros, mas não. Ela deveria doer por si só. O taxista me viu as lágrimas pregadas às pálpebras, sorriu-me pelo retrovisor continuou a dirigir. As luzes amarelas da cidade me invadiam as pupilas dilatadas e cheias das fumaças dos cigarros alheios. Cidade suja, eu estava dando adeus. Mas eu bem sei que deus já partira há muito tempo. Dois pontos vermelhos na calçada que passava rápida na janela. Ou era eu?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Perdido na contradição;

Se ambos fossem pegues ali, na sala de estar... A qual crime seriam condenados? Injúria? Desobediência a um casamento surdo, mudo e aleijado? Ah, não, não, meus caros. A história começa em dois parágrafos atrás: Quando ele a beijou com força e as cortinas deveriam ter pegado fogo, para lhes desviarem as atenções. Mas foi comum. Apenas platonismo transformado em toques de peles e gotas de saliva. O realismo nunca foi meu, nem eu espero que um dia seja. Havia ali muito mais. Porém, o sangue de ambos desejava apenas o segredo que eles poderiam guardar debaixo de suas unhas e esconder pela eternidade aqueles olhos de cristais não lapidados. É aqui onde começo, mas, na verdade, era aqui onde eu deveria terminar.
- Como é seu nome, querida?
- Isabel.
- Ainda vive?
- Não.
- Faz tempo, não faz?
- E como.
- Por quê?
- Eu não sei. Mas já sentiu que havia fogo em seus dedos?
- Óh, sim. Perder o controle é bom, mas soube voltar?
- Não. Ainda não.
- A pergunta é: Você quer?
- Talvez. Só tenho certeza da cor das cortinas daquela tarde, meu bem. Não me faça mais perguntas. Selei-me os olhos. Não foi sincero. Eu mesma não fui sincera.
- Não foi sincera?
- Não.
- Como assim?
- Pergunte-me o nome outra vez.
- Como é seu nome?
- Heloísa.
- Você tem o inferno no nome.
- Ha. - Ela riu. - Tenho o inferno em mim, meu bem. E talvez eu nunca queira voltar ao paraíso.
- O que achou do mundo das torturas?
- É o único que nos dá a liberdade do toque, não é?
- Se você diz...
- É o preço a se pagar.
- Então, você quer voltar?
- Sim.
- Às cortinas ou prefere escolher outro destino medíocre?
- Todos eles são. Mas quero algo novo. Meu cárcere.
- Quem? Diga.
- O filho dela.
- Dela? Por que, Heloísa?
- Porque é o errado.
- Você é um erro.
- Sempre fui.
- É hora de descer.
- Que seja agora e que seja indolor.
- Pensei que gostasse de dor.
- E gosto.
- Não entendo.
- Não me entenda. Vamos.
- Vamos.
Pularam. De volta à cena. As cortinas deslizavam com o vibrar fraco do vento que quase morria no silêncio da tarde.
- Volte aqui!
Ele gritava desesperadamente. E a moça havia desaparecido. Uma criança chorava no cômodo ao lado. Havia nascido. A filha dele. O fruto do casamento surdo, mudo e aleijado.
- Como vai ser o nome dela? - Perguntaram à mulher do jovem senhor.
- Heloísa.