domingo, 21 de dezembro de 2008

Se não fossem feitos olhos escuros na pele, se não tivesse um cheiro tão bom, se a noite tão fosse tão escura, se tuas mãos jamais tivessem tocado as minhas, se não fosse final de ano, se não fosse o final do nosso ano e se tua voz não fosse tão embriagada de lembranças jogadas ao telefone, eu não sumiria pela ponta dos meus dedos, eu não calaria tantas frases inesperadas, eu não saberia como enforcar verbos que a garganta teima em trazer à boca. Ah, deus (deus?), e a culpa é minha.
My guity is my only crime.
A noite cresce assim em mim como o acorde principal do refrão de uma música. O mi, por exemplo, é tão choroso. Mas, olha, quer saber? Nem todas as músicas que eu escrevi foram para ti e eu espero que você me perdoe por ter riscado outros nomes na minha testa e por ter criado infernos em mim que não são teus. Se a linha do meu novelo fosse cinza, a noite não seria eterna e eu não desejaria teus olhos de vilão encarnados na minha pele criminosa. Não, a culpa é nossa.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

And you can't fake it hard enough

Você, fique em silêncio. Ouve essas respirações interrompidas por essas pequenas tosses em apelos surdos? Exatamente: São dele. Você esqueceu de tudo. Ah, tem tanta sorte... Por conseguir enganar a todos. Exceto a mim. Como foi que você morreu, assim, tão facilmente?
E logo você, que me dizia tantas mil vezes que não queria morrer. Que não devia. Eu tomei uns mil vidros de remédios e estou aqui. O que você fez, meu caro? O que fez para ter acabado assim?
Eu vou te seguir, sabendo que no meu batom, eu guardo segredos que só você sabe. Foi culpa minha, não foi? Diga que foi. Diga. Para mim.
Mas você não diz nada. Continua nesse silêncio infinito. Continua aí parado, com esse rosto pálido e com a hipocrisia estampada nesse sorriso que só você tem. Foi e não me levou com você.
Dentro de mim, ainda existe aquele jardim onde nós dois demos as mãos e juramos ser felizes, fosse como fosse. Esse tempo é mesmo uma maldição, me empurrando para o outro lado, como se nada mais importasse e como se você não tivesse me dado nada a que me agarrar, exceto uma carta escrita à beira da morte. Onde estão os seus remédios? Tudo aqui em mim dói.
Faça a culpa ser minha, seu covarde! Foi você quem me deixou aqui, foi você que não voltou para me tomar pelos dedos e me tirar esse gosto de doença da boca. Então não venha me dizer (uma última vez) que fui eu a culpada por te deixar morrer. Foi você... Foi você, acredite.

sábado, 21 de junho de 2008

Você deixou pequenas notas na minha cabeça, e eu não me lembro de todas elas. Nossas cartas ainda estão na mesa, mas não há jogadores. Porque nós partimos. Cada um foi para um lado e eu não me ajoelhei no chão, esperando que você voltasse. Eu nunca fui assim.
Fui. Fui muito mais que isso. Eu fui aquela que mais te amou, mas você nunca soube. E aí aquele amor se perdeu. E algo racional nasceu. Algo quase invisível, perto daquele outro. Eu te deixei, eu te traí. Eu disse que te amava como antes, mas era mentira. Do mesmo modo covarde como você mentiu. Pois bem, estou confessando agora: Eu te amei. Não é mais o mesmo. Agora é só desejo, meu amor. Queime-me por isso, se você também não sente o mesmo. Diga que o seu sentimento é amor puro. Diga, sem mentir, sem virar o rosto. Você é tão deplorável quanto eu. Só que você se esconde, porque você tem medo. E nossas cartas, você engoliu, com medo de que eu ganhasse nesse jogo de esconder. Você puxou a toalha da mesa e as taças se quebraram e você nunca ligou se eu tinha ou não outro amante. Porque seu orgulho foi grande demais para assumir que você me amava. Ou você simplesmente nunca amou. E você mentiu, pensando que eu realmente gostava de ilusões. Não. Ilusões machucam, meu amor. Ilusões rasgam, fazem-me girar em ciclos infinitos de dúvidas, fazem-me beber litros de drogas desconhecidas e não me embriagar, não morrer, não ter a maldita overdose que eu sempre quis ter. Fazem-me escrever, escrever e não achar um fim para esse maldito desespero de enterrar as unhas na carne e não ver sangue. Maldito sangue! A tentação vai falando baixo no meu ouvido, fazendo-me acreditar e me deixando inebriada com a luz da paz, da beleza, da calma, por fim. Mas não é um final isso aqui. Não é a porra de uma carta de amor. Estou me deliciando com a visão da minha mão podre acenando um adeus que você nunca vai ver, enquanto vira de costas e põe as malas no carrinho do aeroporto. Tenho essas visões românticas, do que nunca aconteceu. E sufocam. O segurança olha para você, e ele não tem lágrimas nos olhos, nem você. Só eu, eu é que estou chorando desesperadamente a água que você nunca vai recolher do meu rosto. Que não vai voltar para me dar um último abraço num período de dias, meses, anos. Quem se importa? Você está realmente lendo isso? Vai mesmo guardar isso? Vai me xingar por ser tão melosa nessas palavras, quase versos? Você vai ter vontade de me crucificar por ter te feito ficar comigo quase por obrigação? Porque você está mentindo? Porque não me diz a droga da verdade? Eu posso ver através dos teus olhos quando é de verdade. E não é sempre. Eu vejo tristeza, desespero, vejo um futuro. E não é comigo. E você quer – desesperadamente – ir embora. Então, não minta pra mim. Não minta, porque eu sou fraca e eu acredito no maldito veneno que você expele pela boca. Eu acredito quando você me beija com vontade. Eu acredito quando me abraça com força e quando me joga na cama, na parede, onde quer que seja. Eu acredito quando me toma pelo braço, quando fala que precisa de mim. Eu acredito nesse mundo todo que nós criamos. E que você não fez questão de destruir. E isso foi o que, a nossa primeira briga? Discussão? Desavença? Não. Não foi nada. Não mudou nada. Só me fez rever tudo. E escrever um punhado de palavras, letras, fórmulas, palavrões, nessas folhas de papel que eu nem sei onde você vai colocar depois. Se vai esquecer na esquina de um bar, se vai deixar repousando em cima da cama e seu pai vai ler. Ou se vai rasgá-la, queimá-la, jogá-la. Eu não sei. E acho que não quero saber. Eu quero você, porra. Quero você, do mesmo jeito que te quis desde o começo. Só sou orgulhosa demais para isso.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Buried as deep as you can

É que às vezes eu lhe pego encarando a si mesmo no espelho e perguntando: “Quem você pensa que está enganando?”. Você não era infeliz, só tinha os olhos tristes pela falta do toque, que sua esposa – esposa? – jamais teria. Então, culpe-se. Eu espero que você se lembre de cada beijo não dado e de cada marca não curada. Quero que lembre o sangue que derramamos por isso. Isso que você deixou morrer. Mas, especialmente, eu espero que você saiba que a culpa é sua. Não pense, meu caro, pare de ser tão hipócrita e, por favor, assuma para si mesmo que tua dor é minha.

Teus olhos são pedras, que me prenderam aqui. Fagulhas finas me enfiando na carne o gosto do sangue que eu te dei, de tão bom grado. Vá embora e não me olhe espalhar no chão as lágrimas que você não quis. E não ouse vir aqui para me culpar pela sua inconstância. Oh, não. Essa dor é minha, jamais foi sua, pois são minhas mãos que doem todas as madrugadas, enquanto seguram o copo de absinto que minha garganta regurgita. Viu agora a amarga diferença? Sou desprezível, meu caro. Você ainda é o hipócrita aqui, ainda se esconde por detrás dessas máscaras. Quem você pensa que é? Que pode levar para longe minhas palavras e transformá-las em cinzas. Não, seus olhos são cinza, não os meus. A culpa é sua, meu caro. Sempre foi.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Você sempre gostou da noite por ela ter esse silêncio que te engole vivo. Eu nunca te machuquei como eu deveria. Meu caro, você, com seus dedos de lama, jamais seria capaz de descer do seu pedestal e encontrar os meus olhos. Talvez, doce pretensão, porque eles te cortassem em crateras tão profundas na pele, que seu orgulho em ser completo era maior e você escolhia me deixar no negror da dúvida. É tão cômodo me olhar cair quando nós já não temos os braços dados, não é?
Não me lembro da cor dos seus olhos, mas me lembro de quando você escrevia meu nome e me lembro da tua voz. Hoje, você ficou mudo. Sumiu, mas não levou as memórias que eu deveria esquecer. Muito menos os trapos das palavras que me jogou. E quando me encostou na parede e me fez escolher. E eu escolhi o seu melhor amigo. É por isso que me rejeita até hoje? É por isso que não me olha nos olhos ou que, quando passa, sabe que eu estou te matando com o canto das íris e eu te queimaria vivo pela dor que me fez passar dentro das paredes daquela sala sem teu nome na porta. Se fosse verdade que me amou um dia, eu quebraria minhas entranhas apenas para voltar os anos e ver teu sorriso ser meu. Só meu.
Finalmente, eu espero que você apodreça dentro de mim, para que jamais me deixe só. Eu espero que teus dedos forjem meu rosto e que eu jamais esqueça quem foi você.